quinta-feira, 10 de março de 2016

De pé

-Olha mamã, fiz para ti.
Aprecio o entusiasmo quando me mostra as suas obras, sei que teve ajuda, tem sempre, finjo que não sei e pergunto apenas:
-És tu?
-Não vês que é uma tartaruga?!
-Pois é, tens razão.
A incapacidade ou desinteresse que tem para desenhar ou qualquer outra actividade que obrigue ao desembaraço dos seus pequenos dedos está representado ali, a mão sugerindo o corpo do animal lento, medroso, atabalhoado. A motricidade dele é análoga à de uma tartaruga paraplégica e também ele tem uma carapaça, um lugar só dele onde se esconde quando tem medo, quando brinca ou quando quer apenas sonhar. Dentro dela inventa mil personagens e histórias e por ali fica quando também não quer falar. Olho a figura de pernas para o ar e penso nele igual, tartaruga trambolha que teima em se virar. Tal como a tartaruga, ao fim de muitas tentativas, muitas vezes com um empurrão, outras tantas exausto, fica de pé. E é de pé, se bem que pé ante pé, que segue caminho.

4 comentários:

  1. Tu és tão bonita, Be.
    O teu texto é lindo, e olha: o desenho do teu macaquito é belíssimo — porque, inteligentemente, aproveita uma estampa, e dá-lhe outra forma e um significado alternativo.
    Ele é que a sabe toda: segue a direito, apesar e para além dos trambolhões que vai dando.
    Grande menino, grande mamã.

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    1. A minha tartaruguita rocks!
      E tu também, beijo

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  2. (eu saio de mansinho, de sorriso aberto, porque a Linda já disse tudo). "grande menino, grande mamã."

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Dá cá bananinhas!