quinta-feira, 22 de junho de 2017


Os dias em que não queres dizer nada ou que nada tens para dizer, em que se acabam as palavras e se contam os minutos, dias tristes, apáticos que por palavras ditas perdes a vontade de falar. É desistires, é perderes a capacidade de ressuscitar de todas as desilusões, é deambulares sentidos e perceberes que não podes ser salvo porque não te queres salvar, apenas queres ser consertado.
Os dias em que perdes o dom da palavra, em que não proferes nada nem que seja da boca para fora, contra ti ou contra os outros sem pensar em consequências apenas para te sentires dono da verdade. É a abstinência do ser, é o medo de perder, é ficar no meio do nada sem nada para fazer, é segurares as palavras como se de uma bomba se tratasse e esperares que rebentem dentro de ti porque és senhor da tua razão e assim conténs a emoção, assim seguras a lágrima que teima em querer saltar e só por isso, é melhor não falar.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ser indiferente

Há pessoas que sonham, vivem na utopia de que o mundo pode ser igual para todos, porque seria bonito não teres de falar de inclusão ou teres de lutar todos os dias por direitos iguais. Não interessa nada para quem está de pé que todos os interruptores estejam à altura de uma cadeira de rodas, seria de somenos importante uns pontos em relevo numa embalagem de champô se puderes ler que é adequado ao teu tipo de cabelo, também nada se perderia se além de inglês e francês as crianças pudessem aprender língua gestual na escola. Mas não, há pessoas que fazem questão de te recordar sempre que possível de que tamanho é a tua deficiência, que o facto de teres menos um braço ou apresentares qualquer tipo de distúrbio neurológico é condição preliminar para te apresentar ao lado menos simpático da diversidade.
As boas intenções podem ser perversas se levarem à marginalização do atípico, impor normas que não permitem a convivência em condições de existência já por si desiguais é simplesmente vergonhoso.
Se não queres fazer a diferença, pelo menos mantêm-te indiferente.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Recados

Na caderneta de ambos, o recado, dias 19 e 21 macaquitos não podem ir à escola porque os alunos do 2º ano vão fazer provas de aferição. Pergunta de macaquita:
-Mamã, o que são provas de aflição?

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Não me chamem menino

Faltavam dez minutos para a aula de música, sentei-me com eles na esplanada a beber um café. Na mesa do lado um labrador manso e brincalhão, apesar disso, grande o suficiente para deixar macaquito em pânico e mantê-lo sossegado na cadeira. Pediu-me o telefone para jogar e ali ficou imóvel e concentrado. Do outro lado surgiu um bebé, cerca de dois anos, engraçou com macaquito e meteu-se com ele, macaquito sorriu sem desviar os olhos do telefone e o pequeno insistiu, fez-lhe uma festa no cabelo e correu para a mãe, macaquito continuava imóvel. Passado um minuto, o petiz volta à carga e repete a festa no cabelo, mais uma vez nem um piscar de olhos. Ao fim de três ou quatro tentativas, a mãe do pequeno sorri e resolve intervir.
-Lourenço, larga o menino, estás a chatear. 
Sem desviar a atenção do telefone e praticamente estático, macaquito diz pausadamente.
-Bem... na verdade... o meu nome é Macaquito. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Utopia

Queria poder sentar-me numa roda todos os dias, como hoje, rodeada de miúdos. Felizes, orgulhosos de si mesmos, excitados e contentes com aquilo que fizeram, ansiosos por uma avaliação que nunca lhes darei independentemente do resultado final. O sorriso aberto e o tu consentido será a única nota que receberão. 
Queria um aceno de mais ou menos acompanhado daquele sorriso malandro, quando lhe pergunto como se portou hoje sabendo de antemão a resposta, ele, um dos terríveis "um horror" que tem sempre um olá para mim e que se senta no meu colo, ansiando o abraço sempre que tem a oportunidade.
Queria ter sido outra coisa qualquer que me permitisse enredá-los no meu colo, explicar-lhes que pertencer ao quadro de mérito não é assim tão importante se não soubermos que um lápis castanho também pode ser cor de pele. 
Queria poder dar a todos a oportunidade do papel principal mesmo que tenham dificuldade em decorar e ou de pintarem um quadro mesmo que não saibam a cor do sol.
Queria poder ser para sempre a mãe ET que alguns pais olham com condescendência e outros com inveja porque como diz alguém muito especial "até tenho um filho deficiente e gosto dele!".
Queria ser aquilo que sou e não me sentir tão sozinha.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Quando percebes que já não fazes parte do testamento


É muito bom podermos contar com os avós para ficar com os miúdos quando estão doentes e não podem ir à escola. Sabemos que estão bem entregues, que os avós vão cuidar deles da mesma forma que cuidaram de nós ou mesmo melhor. Sabemos que os vão mimar, que nada lhes vai faltar e que os dias de doença, dores e febres acabam sendo dias de brincadeira, jogos e que provavelmente lhes vão contar os disparates que nós fazíamos quando tínhamos a mesma idade. 

E quando voltam para casa, saudáveis e felizes, acabamos por estar mais tempo na cama deles que o suposto, apenas para matar saudades e para ouvirmos tudo o que têm para contar. 
-Vá Macaquita, já chega, agora tens de dormir.
-Olha, só mais uma coisa...
-Ok, diz lá.
-A avó disse que tu és palerma!

domingo, 4 de junho de 2017

Não tem nada a ver mas tenho de partilhar #7

Comentário de uma tia de pai macaco que nem me lembrava de já ter conhecido.
-Ai querida, estás tão magrinha.
-Eu sempre fui magra.
-Da última vez que te vi não estavas assim. - olho para ela sem conseguir disfarçar que não fazia a mais pequena ideia do que falava, ela percebe e adianta.
-No casamento do primo X.
-Ah, sim... isso foi há quase dez anos, estava grávida de 7 meses!