sexta-feira, 18 de maio de 2018

A mãe que sou devo-o a ti

Não sei de que modo amenizar a dor que me corrói por dentro, tento pensar que nada acabou, que ainda o tenho do outro lado da linha de cada vez que macaquito agarra no "telemóvel fixo" e liga o número de casa dos avós. O lado realista leva-me a pensar que já não o verei chegar de máquina fotográfica e câmara de filmar na mão para cada audição ou festa de fim de ano. Ontem tive vontade de chorar no ensaio de orquestra, engoli as lágrimas e puxei pela cabeça para me lembrar de qualquer coisa que me fizesse rir e evitasse ter de sair atabalhoadamente pelo meio das crianças que compõem o grupo. Lembrei-me de muitas histórias de quando eu era tão pequena quanto macaquito é agora, naquela altura em que as máquinas não eram digitais e todas as fotos passavam pelo escrutínio do fotógrafo lá da terra. Imagino que muito se havia de rir o Sr. Horácio com a falta de habilidade dos conterrâneos na arte de fotografar e com todas as coisas invulgares que lhe passavam pelos olhos. Como daquela vez em que rumámos a norte e passeámos por Trás-Os-Montes antes de seguirmos para o Gerês, num desses longos dias de aventuras que por mais anos que tenha nunca irei esquecer, não recordo bem se ainda tínhamos a Dyane ou o Visa 10E, fosse qual fosse seguia carregado até ao tejadilho e o espaço dava apenas para nos sentarmos encolhidos entre almofadas e roupa de cama, sei que descíamos uma estrada montanhosa onde não havia muita floresta e os rochedos ganhavam terreno às árvores vereda abaixo, a minha mãe teve de parar para fazer chichi, longe estava ela de saber que quando fosse buscar as fotografias ao Sr. Horácio, veria o seu rabo branco emoldurado por calhaus no meio de todas as outras fotos de má qualidade mas que ainda guardamos religiosamente. Parece que ainda a ouço, meio incrédula, meio histérica, de faces rosadas de vergonha ante o sorriso malandro do Sr. Horácio.
-Eu não acredito que o teu pai fez isto! - e nós ríamos a bandeiras despregadas perante a foto tirada às escondidas que permanece misturada até hoje com as outras dentro dos envelopes amarelados num saco de plástico velho cheio de boas recordações.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Nunca deixarei de me rir

Domingo passado foi a primeira comunhão ou "comunião", segundo macaquito (o que faz algum sentido...) da minha sobrinha. Eu não pude estar presente mas o relato dos acontecimentos chegou rápido, especialmente o do final da cerimónia, quando macaquito roubou o microfone da mão do padre e aconselhou todos os "comuniados".
-Desejo a todos um resto de bom dia, espero que tenham gostado e não se esqueçam de portar bem, fazer os trabalhos de casa e ajudar o senhor padre na igreja!
E depois o senhor padre tentou dar-lhe um abraço mas já não conseguiu porque ele raspou-se assim que percebeu que a avó estava a levantar-se para ir embora. 
Ela diz que não mas eu penso que estava a fingir que não o conhecia.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Até já...

E agora? Com quem é vou contar para fazer franjas perfeitas?
Recuso falar em qualquer pretérito, perfeito avô, perfeito pai, sempre presente, para sempre parte daquilo que somos. Certeza tenho apenas que sabes o quanto te amamos e que aquilo que o teu neto viveu contigo não serão apenas memórias, serão lições de vida que farão dele um homem tão grande como tu és!

terça-feira, 8 de maio de 2018

Do dia que tirei para chorar

Gostava que me repetisses a frase que durante anos me ecoou na cabeça de tão mal que me soou na altura "És intransigente na educação dos teus filhos!", provavelmente nem foi a frase, foi o tom com que a disseste. Das poucas vezes que te senti zangado comigo, esta foi uma delas. Agora sou eu que estou zangada, nunca contigo mas com a merda da vida que nos espetou o dedo do meio em cheio no focinho.
Não sei se mais alguma vez te zangarás comigo e com a minha intransigência, prometo dar-te carta branca para me desautorizares as vezes que quiseres, prometo que nunca mais te direi que os estragas com mimo, peço-te apenas que não desistas do teu amigo inseparável, não o saberei consolar.

domingo, 6 de maio de 2018

Ninguém se riu... ou disfarçaram muito bem

Sala de espera de uma consulta menos habitual, várias pessoas a aguardar, macaquito brinca no chão enquanto conversa comigo. De repente levanta-se, chega-se perto de mim e diz.
-Mamã, posso perguntar uma coisa?
-Claro! - respondo-lhe.
-Eu vou ter pêlos na pilinha?
-Sim, claro que sim. Faz parte do crescimento, os meninos ficam com pêlos na pilinha e as meninas no pipi. - reparo que todas as orelhas estão no ar mas continuo a conversa tranquilamente tentando mantê-la entre nós dois.
-Mas eu não quero.
-Pois mas vais ter, é normal. Não te preocupes, depois habituas-te.
Sai do pé de mim, volta para a sua brincadeira na outra ponta da sala e grita de lá para mim.
-EU NÃO QUERO TER PÊLOS NA PILINHA!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

O amor é gourmet

Desde que me lembro e quase invariavelmente o meu pequeno almoço são torradas e leite. Quando preparo torradas para mim e para macaquita escolho as mais branquinhas para ela e tiro a côdea, é assim que ela gosta. 
Na manhã de ontem, acordei e encontrei macaquito na sala a ver televisão, o resto da macacada dormia ainda, arranjei o pequeno-almoço só para ele, deixei-o comer na sala e fiquei com ele no sofá. Passado um bom bocado, macaquita acordou e veio dar-me um beijinho, desaparecendo de seguida. Algum tempo depois, aparece de novo na sala.
-Mamã, preparei-te o pequeno almoço.
-O pequeno almoço? Que bom, vamos lá ver isso. - segui-a até à cozinha. Em cima da mesa, uma caneca com leite achocolatado e um prato com duas torradas quase carbonizadas.
-Gostas mamã? As torradas estão pretas como tu gostas.
-Pois é, mesmo como eu gosto. - sentei-me e comi sem reclamar, estavam mesmo boas. 
O amor torrado sabe sempre bem.

sábado, 21 de abril de 2018

Crimes passionais

A minha ausência aqui prende-se com o motivo pelo qual me tenho ausentado também na vida de macaquitos, coisas boas porém. Em contrapartida, pai macaco tem recebido uma dose extra de vida familiar, mais refeições juntos, mais banhos, mais tpc's, mais passeios, mimos e obviamente, mais situações inusitadas que é o que acabo por sentir mesmo muita falta. Hoje quando foi buscar macaquito à escola, assiste a uma cena em que outro miúdo, agride macaquito com um murro na barriga, ali mesmo junto à entrada da escola. Como não sabia o porquê, não interferiu junto da outra criança e apenas tentou acalmar o filho que chorava copiosamente. O pai do outro miúdo, que pelos vistos até conhece pai macaco, veio ter com ele, pediu desculpa e explicou o sucedido. 
-Desculpa, a sério mas sabes porque é que foi? Foi por causa da Maria Inês, o teu filho andou de mão dada com ela e o meu (apaixonado) passou-se porque diz que ela é a namorada dele.
De seguida, obrigou o miúdo a pedir desculpa que pediu, contrariado, e o nosso desculpou.
E enquanto o pai me contava isto, macaquito exibia um sorriso malandro e vitorioso e ainda me acrescentou os pormenores de ter tomado a mão de dama alheia. E ao que percebi, ela é que lhe deu a mão, ele apenas não a recusou.