quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Juro que o tento educar melhor...

Enquanto arrumava o meu quarto percebi que macaquitos se desentendiam na sala, a forma de resolver os problemas entre eles é desviar o foco do assunto que, a maioria das vezes, é tão complicado como decidir qual o canal de desenhos animados que cada um quer ver.  Opto quase sempre para chamar apenas um e desviar a atenção do não assunto.
-Macaquito, chega aqui à mamã. - chamo do quarto.
-Sim mãe?!
-Ajuda-me aqui a fazer a cama para eu me despachar mais depressa.
-Ok, vou aqui para o lado do papá. - começou a puxar o lençol mas puxa sempre na direcção dele próprio e não da cabeceira da cama. Dei a volta e ajudei a consertar o lençol e o edredão, ficou apenas a dobra do lençol por fazer, voltei ao meu lado e dobrei pedindo-lhe que fizesse o mesmo mas puxou tanto a dobra que desmanchou quase tudo.
-Macaquito, que trapalhada. Eu não acredito que um rapaz com 11 anos ainda não sabe fazer a cama. - digo-lhe em tom de brincadeira.
-Não te preocupes com isso, quando eu crescer vou arranjar uma namorada e será ela a fazer a cama!

Da perda

Quase sete meses passados sobre a morte do meu pai, macaquito começa agora a compreender a dor da saudade, a maturidade emocional que lhe achámos era, na verdade, incompreensão. Chora a impossibilidade de rever o avô, percebe agora que é irreversível, que não podemos ir buscá-lo lá ao sítio onde o deixámos. Mas o avô não queria morrer, diz-me com a voz embargada e eu explico-lhe da maneira que sei, com as palavras mais doces que sei, que a saudade pode ser boa, que é o bocadinho dele que temos no nosso coração que não nos deixa esquecê-lo e que será sempre parte do que somos. Digo-lhe, sem acreditar, que esteja onde estiver o avô nos acompanha e nos protege e estará feliz se nós também estivermos, minto-lhe deliberadamente porque não tenho outra forma de lhe mitigar a dor.
No fundo não sei nada da dor dele, ele explica-se por analogias a que tento dar expressão e valor mas não sei se consigo com exactidão uma medida para essa dor. E ao mesmo tempo que se confronta com a dor da morte percebe da pior maneira que também se perde pessoas vivas, depois do silêncio confuso a que me votou nos últimos dias, chovem agora chorrilhos de perguntas a que não sei de todo responder. Invento razões que ignoro, digo-lhe que às vezes as pessoas se sentem tão sozinhas que não querem ver ninguém mas não espero que compreenda. Enxugo-lhe as lágrimas e envolvo-o entre os meus braços e espero desta forma apaziguar as suas emoções porque sei que não há palavras que o consigam consolar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A difícil arte de mandar

Enroscados na cama dele, conversamos sobre o que nos entreteve durante o dia, ele faz perguntas sobre o meu trabalho e eu sobre a escola e as actividades, até que ele dá a volta à conversa.
-Mãe, a partir de agora sou eu a mandar e tu vais ter de fazer as minhas tarefas.
-Ai é? Então e quais são as tarefas?
-Arrumar os brinquedos e brincar como Audi!
-Parece-me bem mas visto que vamos trocar de papéis, para mandares terás de fazer as minhas tarefas. - digo-lhe expectante.
-Ok e quais são as tuas tarefas?
-Cozinhar, tratar da roupa, limpar a casa, arrumar....
-Cozinhaaaar? Eu não sou gastrónomo! 
-Eu também não mas temos de comer.
-Pronto, está bem. O que é que tenho de fazer amanhã?
-Tens de acordar muito cedo, às 7h e depois tens de preparar o pequeno-almoço para todos, preparar as roupas para ti e para a mana, os lanches e até te deixo conduzir o carro para nos levares à escola.
-O carro? Eu não tenho carta de condução, tontinha. 
-Ok, eu levo o carro e tu tratas do resto.
-Está bem mas não sei se consigo acordar cedo, não tenho despertador.
-Eu ponho o meu despertador aqui quando me for deitar.
-É melhor não, toca muito alto e eu vou-me assustar. - pensei que estivesse arrependido de aceitar as tarefas e que a coisa ficasse por ali. Pensei mal!
De manhã, assim que saio do banho dou com ele a correr para a minha cama e a dizer ao pai que se deixasse estar que ele ia preparar o pequeno-almoço. E assim fez, arranjou leite para todos, bolachas para a irmã, a papa para ele. Acordou a irmã com mimo, tal como eu faço, comeu, arrumou a loiça como conseguiu, perguntou-me o que fazer a seguir e foi-se vestir.
-Mãeeeeeee, dás-me umas calças que eu não chego lá? - vou ao quarto dele e já tinha escolhido e vestido meias e camisolas, enquanto vestia as calças perguntou-me o que fazia a seguir.
-Quando acabares de te vestir podes ir fazer as camas. - olhou para mim com um ar aterrorizado e diz muito chateado.
- Tenho a impressão que sou pau para toda a obra!

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Baseado no conto "O rato do campo e o rato da cidade"

Já nem sei o que levou à conversa, estávamos no carro a caminho da escola.
-Eu gostava mesmo de viver numa vivenda.-diz macaquita.
-Tens bom remédio, pegas no pai e vão os dois para a "aldeia", eu fico com o mano aqui e vemo-nos ao fim de semana.
-Tu não percebes, é como a história que o pai inventou no outro dia, os gatos da cidade comem do lixo e os gatos do campo caçam ratos para comer. Eu não quero ser um gato da cidade e comer do lixo. Quero ir para o campo caçar ratos....
... (pausa muito prolongada)

(continua) ...ah! Pois, os gatos do campo são como os humanos que caçam porcos para comer!
-Ah pois é! A malta do campo quando vai ao supermercado anda toda de caçadeira em punho para trazer porcos para casa. - respondo eu sem conseguir evitar uma barrigada de riso.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Alguém devia ter uma bola vermelha ou como lecionar disciplina positiva...

Uma manhã destas macaquita não se sentia muito bem, tosse e dor de cabeça, dizia ela. Perguntou se podia ficar em casa, como não tinha febre insisti para que fosse à escola. Já à porta da escola teve um ataque de choro, puxei-a para o meu colo e tentei acalmá-la.
-Porque é que estás a chorar assim? Não te sentes bem?
-Eu não quero ir à escola, posso ficar em casa hoje?
-Macaquita, se não te sentires bem ou tiveres febre, pedes para ligarem para mim e eu venho buscar-te.
-Mas a professora grita muito.
-Contigo? 
-Não, não grita comigo mas grita muito alto com os outros e eu nem consigo pensar.

E depois há os bons professores...

domingo, 18 de novembro de 2018

Sol de São Martinho

Foi capricho meu pensar que subiria a escadaria rumo ao espaço e encontraria no seu topo as respostas a alguns dos teus enigmas. Sei que é em Saturno que te encontras, que em Marte tens a tua segunda cor preferida e em Neptuno a primeira. Depressa percebi que não há respostas nas estrelas, que passear pé ante pé na Via Láctea não me faria encontrar-te, não és de outro planeta, não és satélite nem cometa, és azul do espaço e é ao espaço que tornas para te encontrar mas não é lá que moras.
Revolvo galáxias repletas de outros planetas e constelações e não encontro absolutamente nada que me permita compreender os teus mistérios, volto à Terra sem respostas mas cheia de certezas, é no meu colo que encontras consolo, nos meus abraços apaziguas incertezas e saudades e nas minhas palavras procuras conselhos até para as tuas inconveniências. E isto é o que me basta, a certeza do amor que temos.




segunda-feira, 22 de outubro de 2018

As três luas

Já há muito tempo (tanto que não me lembro desde quando) que macaquito me pergunta sempre que se lembra o que quer dizer o sinal de trânsito com três luas. Fartinha de puxar pela cabeça e não conseguir perceber, perguntava-lhe se era um sinal de informação, perigo ou obrigatoriedade e ele não me sabia responder. Desde muito pequeno que ele reconhece e sabe o nome da maioria dos objectos, mesmo os menos comuns, no entanto, sempre teve muita dificuldade em distinguir caso lhe sejam apresentados numa forma menos habitual, daí ter percebido desde a primeira vez que seria qualquer outra coisa que não luas mas andava muito curiosa sem conseguir chegar à resposta. 
Finalmente percebi quando passávamos numa ponte na autoestrada e ele me tornou a perguntar, mais uma vez nem tinha reparado mas lembrei-me que naquele sítio existe um sinal destes:
Confirmei com ele e sim, confere, na cabeça dele são três luas e não uma manga de vento e eu fico a pensar que é bem bonito ver luas num sinal de perigo É lá que anda sempre... na lua.