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terça-feira, 9 de maio de 2023

Se me rir é só depois

Devia haver um fio que pudesse puxar e que devagarinho esvaziasse a angústia que me enche por dentro. Ontem quase alcancei a ponta quando macaquita achou que eu estava triste porque não lavou os dentes, assomou-se um sorriso, um esgar de felicidade mas mal dei por ela, a ponta do fio escapou outra vez. 
O que vier depois será de rir ou chorar mais, o que vier depois que me leve esta inconstância, que me despeje as lágrimas todas de uma vez ou me faça rir até doerem todos os músculo da barriga,  o que vier depois que me resgate deste corpo onde me enfiei e no qual enceno sorrisos apenas para fingir que está tudo bem. O amor, este amor, é o que tenho de mais verdadeiro mas este amor extravaza por cada poro, consome a energia de cada célula do meu corpo, exorta todos os meus medos sempre que há algo que não consigo dominar. E este medo tolda-me o discernimento, arrasa todas as estratégias de sobrevivência, faz-me vergar. Acho que só preciso de um desfecho.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Do medo

Tem sido muito difícil escrever sobre o meu filho nos últimos tempos, talvez porque instituí que este blog tinha de ser uma coisa feliz e cheia de amor, ou apenas porque não sei bem qual o caminho que trilho com ele neste momento e me sinto a falhar. Ou que, pior do que isso, delego em mim uma culpa de que tudo o que fiz para trás foi tão mal feito que agora estou a colher os dividendos de todos esses erros. e neste momento, a felicidade está tão contida e o amor, sempre tão desmesurado, se perde entre ralhetes, punições e lágrimas.
Sei de antemão que sozinha não consigo  mudar o mundo e muitos menos os pensamentos padronizados de uma sociedade que educa pela vergonha e mais pelo que não se deve fazer do que pelo respeito e aceitação dos que divergem do padrão. Mas podia ter tentado, podia ter falado mais alto, podia não ter condicionado comportamentos com medo de que o julgassem ainda mais por ser ele próprio. Acredito cada vez mais que cada pessoa tem o seu lugar no mundo e não no seu mundo, se esse lugar for o de "esquisitóide", que seja, só que não seja "o esquisitóide que até tenta ser normal".
Partir do pressuposto que alguém que não é neurotípico, não é uma pessoa completa, dirige-nos no sentido de que há um vazio, uma falha que precisa de ser preenchido. O meu filho cresceu com uma mãe que demasiado tarde percebeu, ou percebeu agora, que mais que tentar integrá-lo, deveria ter trabalhado no sentido oposto. Muitas vezes eu tentei que o meu filho fosse "normal" mais do que tentei que os outros empatizassem com ele e os seus comportamentos. São momentos fugazes, na fila do supermercado, ou na loja onde ninguém te conhece, ou porque tens muita pressa e é mais fácil dizer "agora não podes fazer isso, tira as mãos dos ouvidos, não mexas nessa porta, não podes andar nu na praia". E apesar de sentir que sempre tentei educar as pessoas com o preâmbulo da aceitação, fi-lo de uma forma muito dirigida a quem tinha e tem de lidar com ele no dia a dia, deixando para trás todas as outras pessoas que compõem um mundo que não é o nosso.
Sinto que devia ter desafiado mais os outros, mais que desafiar macaquito com conceitos de normalidade, o que se impunha, e se impõe, é desafiar os outros a aceitá-lo da forma que ele é, com todas as suas estereotípias e a sua falta de filtro para os padrões normalizados na nossa sociedade. Todas as coisas que não deixei que fizesse por pensar que o estava a proteger e que não sendo confrontado com a azia alheia, ele não se magoaria, estão a ter um efeito boomerang porque ele está a crescer e está a tentar ser igual aos outros, só que os gestos mecanizados perdem-se quando confrontados com uma nova aprendizagem ou realidade e na adolescência isso é uma constante. E eu não estou sempre lá.
Eu não estarei para sempre cá!



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Também sinto raiva

Tenho sido muito paciente, meu filho. Aceito de ânimo nada leve, todas as palavras que me contas que te dizem e finjo. Finjo que a maioria delas não tem grande importância, não quero que lhes dês importância, quero que enfatizes apenas as que valem a pena.
Ontem perguntaste se tenho nojo de ti, porque o Salvador assim te disse, que metias nojo e que eu e o pai tínhamos nojo de ti. Não te disse mas tenho nojo desse Salvador que não sei quem é, tenho nojo das palavras que lhe saem da boca, tenho nojo de saber que os pais do Salvador talvez não saibam mas deviam saber que o filho deles, tão pequeno, é uma criança má. Tenho nojo dos que te agridem e dos que te ignoram mas não te posso dizer. Digo-te que continues a fazer esse esforço tantas vezes frustrado de te incluíres num mundo que não é o teu e onde nem sequer te encaixas. Também te digo que não faz mal não seres parte de tudo ou de nada, que podes ser o que quiseres, que só não podes imitar os outros, porque ser igual aos outros é diferente de fazer parte de alguma coisa. Que te podes manifestar na tua individualidade mesmo que isso pareça estranho a tanta gente, que não podes copiar a maldade alheia mesmo que isso te faça sentir melhor. Não deixes que ninguém, nem mesmo eu, desenhe o teu caminho, fá-lo de estranheza, fá-lo de diferença, escreve-o em maiúsculas à máquina que só tu entendes mas nunca escrevas palavras que ouviste, se estas não forem as que te ouço quando me falas ao ouvido de mansinho. Faz o que te digo, não faças o que eu sinto...

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Não tem nada a ver mas tenho de partilhar #6

Num país em que as pessoas chegam a celebridades a partir de vídeos de sexo e séries da MTV, não percebo qual é o espanto.

Não tarda teremos reality shows directamente da Casa Branca.