quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Eu cá dizia "belícia"

Hora de jantar. 

-Mãe, este arroz tem maravilhas do mar? - levei dez segundos a atingir. 

-Delícias, macaquita, delícias! E não, é arroz de polvo. 

Deliciam-me estas fragilidades linguísticas dela, não há dia que não me façam rir, como não há dia que não me levem ao desespero. É na escola que mais se nota, tem de trabalhar muito para alcançar metade do que os outros alcançam, tem muita dificuldade de interpretação. Não me preocupam as notas, preocupa-me a saúde mental dela que se sente diminuída em relação aos colegas, por isso, não fala, não pergunta, não tira dúvidas em sala de aula. 

Às vezes, inadvertidamente, faço-a chorar quando estudamos juntas, o arrependimento (inútil) chega-me logo de seguida, é quando as lágrimas lhe rolam que compreendo a razão de não fazer perguntas aos professores. A nossa felicidade não é enfeitada, tem dias que se faz de ralhetes, lágrimas, cansaço e medos. Colmata-se tudo isto com beijos e abracos, que sempre sabem melhor que maravilhas do mar. 

domingo, 16 de janeiro de 2022

Tenham vergonha, pá!


"Fernando Tordo fez declarações polémicas", vários artistas e personalidades ligadas à cena musical sentiram-se menorizados pelas suas declarações e fizeram questão de mostrar o quão injustas foram as tais declarações. Tanta gente abespinhada com as palavras do emblemático artista, tanta gente a quem chamo ignorantes, cambada de ignorantes! Nenhum percebeu a real gravidade das palavras do Tordo.  O próprio afirma que agora diz tudo como os malucos e por isso arroga o direito de roubar a dignidade aos "atrasados mentais". Pois eu arrogo o direito interpretar estas declarações como um ataque preconceituoso às pessoas com atraso mental. Capacitismo, é o que é.  A Lei n.o 46/2006 de 28 de Agosto proíbe este tipo de prática discriminatória e a subversão das palavras é uma prática discriminatória.
Lamentavelmente, a ignorância que tantos demonstraram publicamente porque se sentiram ofendidos com as palavras do "artista" e não perceberam que as únicas pessoas que se podem, devem e foram ofendidas nas suas declarações foram as pessoas com algum tipo de incapacidade mental, esses sim são dignos de ouvir orquestras, ter acesso a arte e cultura, seja de que artista for. Não podem é ser roubados da sua dignidade por ofensor e "ofendidos"!


 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Coisas da cabeça dele

Segunda-feira, fim de férias:

-Porque é que tenho de ir para a escola? Quem me dera ter um aviário. 

Terça-feira, ao deitar:

Eu: -Espero que esta noite não haja passeios noturnos, nem brincadeiras com perfumes.  

-Mas mãe, estava cheio de calor e todo transpirado. Aqueles lençóis são muito quentes! 
(na noite anterior lembrou-se de ir para casa de banho despejar um frasco de perfume por todo o lado, menos nele. Acordei mais de 20 vezes com a boca a saber a perfume...) 

Quarta-feira, depois da escola:

-Porque é que os professores mandam trabalhos? Eles não percebem que a minha vida é muito difícil. 

Quinta-feira, ao almoço:

-Mãe, é difícil mandar vir um guarda-costas da internet? 

Sexta-feira:

-A Dona G é muito engraçada, ri-se sempre das minhas piadas, mesmo quando são aquelas secas. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Três palermas à conversa

Limpo desenfreadamente o vidro da lareira na pressa de a acender visto que a descida das temperaturas já se faz sentir em casa. Macaquita está sentada na secretária em frente ao portátil e macaquito vê televisão com o som demasiado alto. Apercebo-me que conversam mas não ligo ao que dizem até que macaquita arremessa em forma de grito:
-És mesmo burro!
-Ei! Então, sabes bem que não gosto disso.
- digo eu. 
-Mas mãe, ele não está a perceber nada e só diz asneiras. Eu estava a explicar que vai passar um cometa ou asteróide ou sei lá...
-Meteoro?
-Isso! Vai passar aqui no planeta Terra e é do tamanho de um autocarro... 
-Aqui no planeta Terra?
- atiro eu com ar de gozo. 
-Oh! Lá no espaço mas à volta da Terra... Tu sabes... E ele pergunta "Vai passar em (nossa cidade)? ". Isso é burrice!
-Se calhar ele queria apanhá-lo. - neste momento, macaquito, que se tinha mantido impávido, esboça um sorriso. 
-Hã?! O quê, mãe? - diz completamente baralhada. 
-O autocarro! 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Pandemia no coração

Nos últimos tempos, foram muitas as vezes que aqui cheguei com o fogo nos dedos para contar um qualquer disparate de macaquitos mas há sempre qualquer coisa que me faz deixar as histórias nos rascunhos, sejam coisas minhas ou loisas dos outros. 

Tenho o coração triste, amargo, ressentido, amassado até. Ainda me rio dos disparates que já não conto, emociono-me com as dores alheias,  desiludo-me mais com as pessoas, espero mais alto e caio mais fundo. Confronto o meu bem-estar mental e sei todas as razões para me sentir assim, só não sei preparar a poção para arrepiar caminho. Não me prendo em memórias pois assumo a sua inutilidade na resolução dos meus conflitos interiores mas sinto falta de tanta coisa, do meu pai, dos meus amigos, de ser feliz no trabalho, de ser feliz em casa, de ler, de vos ler, de chorar a rir a ler-vos. 

Venha o que vier neste novo ano, desejo que nos devolva o amor, a gargalhada, o sorriso, a saúde e os abraços, e a ti "Blue", que te devolva os caracóis. 


sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Cá se fazem, cá se pagam.

Hora de almoço costumeira, fazer piscinas entre o prato e a escola de macaquitos para conseguir almoçar, dar almoços, deixar na escola de novo e chegar a horas ao trabalho. Paro o carro numa rua paralela à escola deles e apresso o passo até à esquina frente ao portão para que me vejam e se despachem. Ao chegar à ponta do passeio, aguardo que passe um carro antes de atravessar, a condutora que me conhece faz-me sinal para passar, dou um passo enquanto agradeço a gentileza através de um aceno com a mão, nesse instante a biqueira da bota bate levemente no empedrado e dou uma queda monumental. Aquele segundo no ar em que percebo que não tenho hipótese, já estou a pensar em calão. Aterro no meio da estrada em frente ao carro, além da mão esquerda, são os joelhos que embatem ferozmente no alcatrão, digo asneiras baixinho. O reflexo inicial, pelo menos na minha cabeça, é fazer que nem anjo da Victoria Secrets, seguir linda e esplendorosa na passerelle, tudo o que consigo é sentar-me! As dores excruciantes toldam-me os movimentos e só me apetece chorar. A condutora que parou para eu passar, aparece com um ar aflito, não consigo descortinar se era preocupação ou se mordia a língua para não se rir da pessoa que, tal Luis de Matos, se esfumou na sua frente. Do outro lado da rua vem outra senhora que também apreciou a cena, visivelmente atrapalhada pergunta-me se preciso de ajuda. Respondo que sim, que me ajudem a levantar que não sou capaz, seguram-me os braços como se tivesse 90 anos (era assim que me sentia, ok?!) e ajudam-me a voltar ao passeio. Perguntam-me se quero uma ambulância, respondo que não, que só preciso de uns minutos para me recompor, se bem que a minha dignidade demorará bem mais que isso. Entretanto, formou-se um engarrafamento porque a rua, de dois sentidos, tem sempre carros estacionados no sentido contrário ao da senhora que parou. Digo-lhe que pode seguir, que estou bem mas no fundo só estava a dispensar o público que observava a cena como se se tratasse de um acidente na autoestrada. Atravesso finalmente a estrada, com as calças rotas e sujas de sangue e peço aos miúdos que não me apressem pois disfarço dolorosamente a vontade de coxear. Perguntam-me o que aconteceu, conto resumidamente e oiço de macaquito a resposta que merecia ouvir há muitos anos:

- A sério mãe, rompeste as calças? 


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

 

A minha descrença na humanidade acentua-se quando ouço uma criança, de idade aproximada às minhas, dizer numa reunião onde nem sequer deveria estar presente sobre o quanto se sente injustiçado em sala de aula quando um qualquer professor dá preferência aos meninos que têm mais dificuldades, menosprezando a capacidade dos mais inteligentes da turma que também põem o dedo no ar e quase nunca são preferidos.

Não menosprezando a legítima vontade da criança de querer mostrar a sua inteligência, o que me repugna profundamente é a anuência de cabeça da progenitora, o ar de infelicidade ao mesmo tempo que corrobora as palavras do petiz, a par com concordância da subdiretora do agrupamento que deu o mote a esta intervenção para me responder com um argumento falacioso que os meninos com mais dificuldades têm um excelente acompanhamento ao ponto de se pôr em causa a educação dos alunos de excelência académica.

Faltou-lhe, ao petiz, alguma robustez no discurso, fruto da sua tenra idade, e a mim faltou-me a coragem ou insensatez para contra-argumentar pois não tenho por hábito levantar espadas contra crianças.

Estou habituada a encarregados de educação que julgam ter os seus educandos deveras prejudicados por partilharem aulas com crianças com necessidades educativas especiais, obviamente que compreendo que o discurso será repassado em casa como uma doutrina e que nem todos temos a capacidade de educar para a empatia. O que não engulo são discursos corrompidos de uma subdiretora que desvaloriza a incapacidade do sistema de ensino no que diz respeito à educação especial, através de argumentos que entusiasmam a maioria porque essa maioria não faz a mais pálida ideia do que é condescender.