sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Agora que já consigo rir-me do último filme de terror

 
Chegámos à casa da aldeia ou, como dizem uns amigos muito queridos (e tontos), ao Turismo Rural da Fonte de Pedra, entusiasmadíssimos para passar uma tarde. Mentira, fomos mesmo só para limpar e dar um jeito no quintal, por isso, a única pessoa entusiasmada era mesmo macaquito pois não participa em nadinha que envolva esforço físico, mas é mesmo bom a moer-nos o juízo. Desculpem, comecei o parágrafo a mentir porque na verdade, só estávamos no início da rua quando tudo se precipitou. Foi aí que encontrámos a vizinha da frente, a quem carinhosamente intitulamos de Segurança 24 visto que nos dá um olho pela propriedade quando não estamos. Enquanto dizíamos um olá, macaquito resolve sair do carro.
-Olha, eu vou à frente abrir o portão. - anuímos, ele começa a andar, e quando estamos para arrancar atrás dele, o pai apita o carro na brincadeira. Longe dele imaginar que isso iria espoletar um episódio de susto, não me lembrava da última vez que aconteceu, o certo é que parecia que tinha sido atingido a tiro, levantou os dois pés do chão e caiu como se fosse uma tábua. Ouvi o baque da cara dele a bater no chão e pensei imediatamente que tinha ficado sem dentes. Saí do carro em segundos e só via sangue, agarrei nele da forma mais estúpida que me ocorreu naquele momento e andei o resto da rua até casa com ele por um braço. Já dentro da propriedade, abri a torneira da Fonte de Pedra (vejam só isto, tontos) e tentei lavar o sangue, foi aí que percebi que não tinha um filho desdentado mas sim um filho que parecia ter sido mordido no queixo por um cão raivoso, além das mãos, braços e pernas queimados do alcatrão
Pedi a macaquita que me trouxesse uma toalha lavada, mudei-lhe a t-shirt, para não parecer que se estava a esvair (mais ainda!) e levei-o para o hospital.
Os oito quilómetros que separam a casa do hospital pareceram oitocentos, especialmente ao nível auditivo, supus que nunca mais recuperaria a audição depois daquela gritaria toda. Entrámos nas urgências e a primeira pergunta que ocorreu ao segurança, muito menos competente que a nossa vizinha, foi:
-Então, há azar? - apeteceu-me responder que não, que só tínhamos entrado para um cafezinho e que macaquito preferia chá, daí a gritaria. Entrámos diretamente para a sala de urgência onde, acredito que TODOS, os médicos e enfermeiros de serviço assomaram à porta dos respetivos gabinetes para perceber que forrobodó era aquele. Disfarçadamente, expliquei a uma enfermeira que macaquito, apesar de parecer um adolescente drama queen, era autista e que estava em pânico, que não se iria queixar uma única vez de dores mas que iria panicar com todo e qualquer procedimento hospitalar, portanto, talvez fosse melhor arranjarem-nos um local discreto para continuar o serviço ou arriscavam-se a perder todos os outros pacientes para um hospital psiquiátrico.
Fomos encaminhados imediatamente para a cirurgia, a médica que nos atendeu não podia ter sido mais humana e competente, a enfermeira que lhe tratou todos os centímetros de corpo sem pele e queimados do alcatrão foi incansável e inteligente, deveras inteligente. Sabem como conseguiu que ele acalmasse antes de seguir para o RX? Emprestou-lhe uma cadeira de rodas. Foi o sossego a partir desse momento para todos, excepto para os pacientes na sala espera da cirurgia, a quem moeu o espírito com os seus relatos do acidente, perguntas sobre o estado de saúde e manobras artísticas na SUPER MEGA CADEIRA DE RODAS!
Foi muito assustador mas o pior já passou, claro que não estamos livre doutra, se bem que espero que não seja muito próxima ou qualquer dia fico-me com uma paragem cardíaca e depois não há ninguém que ature estas merdas.
Só vim aqui relatar isto tudo para saberem que estamos vivos e de saúde, apesar das novas cicatrizes, ele no corpo e eu na alma mas também para relembrar as pessoas menos conscientes destas problemáticas que sejam empáticas, mesmo quando vos parecer que o rapaz maior que a mãe está a fazer uma birra porque tem de levar meia dúzia de pontos nos queixos.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Ai sou?

Na urgência do hospital face às longas horas de espera, calhando logo na hora de jantar, macaquito desespera com fome:
-Mãe, posso ir à máquina ver o que há? 
-Podes mas não deve haver muita coisa que possas comer mas vai lá ver. - foi e voltou num instante. 
-Só há compal, o resto não posso. - entreguei-lhe moedas e lá voltou satisfeito. 
-Vou pôr o pacote na reciclagem. - alerto que não deve haver reciclagem mas digo que vá porque ele só quer mesmo esticar as pernas. 
Passado cinco ou seis minutos, como não voltava vou espreitar à porta da sala e vejo-o à conversa com o segurança que se ria. Só oiço o final da conversa. 
-Deixa, eu ponho isso no lixo. Aquela senhora é a tua mãe? - pergunta o senhor ao ver-me ali. Macaquito responde em andamento, passo rápido e  a empurrar-me para dentro da sala. 
- Não, não é minha mãe. É só a minha prima. 

domingo, 29 de maio de 2022

Já desisti de tentar mudar isto...

No rádio do carro dava o noticiário, qualquer coisa sobre os casos de varíola dos macacos. 
-É o quê dos macacos? - pergunta macaquito.
-Varíola dos macacos! - digo. 
-Isso é o quê? -pergunta ele. 
-É uma doença. 
-E como é que se apanha isso? Sâo as pessoas que comem macacos... - começa macaquita a perguntar mas nem a deixei acabar. 
-Não, não te preocupes. Não se apanha por comer macacos do nariz. Não são esses macacos... 
-Ufa! 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Ideias fixas!

Entrou na cozinha apressado nos gestos e nas palavras. 
-Mãe, hoje enquanto eu estiver na escola tens de escrever um poema. 
-Um poema? Não estou a perceber. -retorqui.
-Desculpa. - disse num tom mais baixo e abraçou-me, sussurrando no meu ouvido um "Bom dia mamã!" 
Encheu-se de energia e recomeçou:
-Agora sim, hoje tens de escrever um poema. Tem de ser muito bonito, no final tens de escrever "gosto de ti e quero que gostes de mim". Também tens de pôr uma flor mas não é desenhada, é uma flor a sério... Não! Deixa, eu trato da flor, isso é trabalho para mim. 
-Macaquito, não estou a perceber nada. Mas que poema é esse? Se for um trabalho da escola, posso ajudar mas não posso fazer por ti. - sabia exatamente o que ele pretendia, no entanto, dá-me um certo gozo puxar por ele. 
-Ó mãe, tu sabes... Não é da escola, é para... tu sabes... Se eu lhe der um poema, ela vai gostar de mim. 
-Isso não funciona assim, um poema pode ajudar mas também pode não resultar. Além disso, não posso fazer essas coisas por ti. 
Ficou pensativo, tomou o pequeno-almoço, preparou-se para a escola e já a sair de casa, com um pé no elevador, insistiu. 
-Até logo, não te esqueças do que tens de fazer, depois no fim de semana, eu vou lá de bicicleta pôr na caixa do correio. 

domingo, 1 de maio de 2022

Dia da mãe

Há coisas que não mudam... 


Macaquita desenha-me coisas bonitas, 


Macaquito, hummmm, bem... continuamos magros. 






sexta-feira, 22 de abril de 2022

She has a point...

Já não sei dizer se foi ao almoço ou ao jantar, nem em que dia do fim de semana tão prolongado como o tempo passado à mesa entre tintos, petiscos, amigos e criançada. 
-Mãe, posso deixar este resto? Não consigo comer mais. E estou com gases, tenho de ir para a casa de banho. 
A minha amiga, já com a mão no prato da miuda, olhou para mim com aquele ar de quem vai começar a rir a qualquer momento, uma espécie de premonição por já conhecer bem a "peça".
-Podes, podes, vai lá. Não era necessária tanta informação. - respondo e claro, ela tinha de explicar tuuuudo. 
-Também nem sei porque é que tenho de ir para a casa de banho para dar um pum, mesmo que feches a tampa eles não ficam dentro da sanita! 


quinta-feira, 21 de abril de 2022

Na lotaria da vida, saiu-nos a sorte grande

No carro, a caminho de casa, eu e pai macaco  quase somos abalroados por um rapaz de bicicleta que sai do passeio e se põe à nossa frente, continua na estrada meio doido, a pedalar muito depressa. Abana a cabeça dum lado para o outro no cruzamento mas claramente sem ver nada. Os gestos estranhos, o olhar de soslaio num misto de cara de mau, cara de gozo e um "esta foi por pouco", a cabeça a rodar para todo lado sem olhar para lado nenhum, deu-nos vontade de rir. 
-Lembras-te há uns anos, quando dizíamos "não gozes, podes ter um filho assim!"? - digo eu. 
-Já tenho! - respondeu e rimo-nos os dois. 



quarta-feira, 20 de abril de 2022

Em caso de duvida, não introduza.

A caminho da caixa no supermercado depois de, entre outras coisas, comprar tampões:
-Há uma coisa que ainda não percebi? -diz macaquita.
-O quê? -pergunto. 
-Como é que isso não se vê nas calças? - olhei para a caixa de tampões e para os pensos diários sem perceber, mostrei-lhe as duas. 
-Hein?! Explica lá qual deles, não estou a perceber a tua dúvida. 
-Esses supositórios... - não aguentei e dei uma gargalhada, entre risos lá lhe consegui dizer que eram tampões. 
-Ah, pois, os supositórios é outra coisa... (pausa prolongada) Já agora, os supositórios é para quê? - pergunta visivelmente baralhada. Eu não conseguia parar de rir. 
-Oh macaquita, é o medicamento que se põe no rabo. 
-Claro, que estupidez, o lápis de cera branco! 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

Mangas arregaçadas

Tenho alguma dificuldade em digerir injustiças, especialmente se estas nos são passadas como a melhor solução para o problema que outros criaram. 
Um dia destes fui chamada a uma entidade para contar o que se estava a passar na escola com macaquito, a intervenção desta entidade será apenas com os agressores e respetivos pais, no entanto, a sugestão de uma solução pouco inclusiva e até ilegal deixa-me logo a fervilhar. Depois de todos os episódios explicados, não só estes últimos mas com uma abordagem geral a todos estes anos de escola pública, sempre no mesmo agrupamento, fizeram-me a seguinte questão:
-Já pensou em mudá-lo de escola? - não obstante a surpresa pela pergunta, demorei três segundos a responder.
-Já, obviamente que é uma das soluções em cima da mesa mas diga-me honestamente onde está a justiça dessa solução? Porque razão terei de mudar toda a rotina de uma criança que está integrada, neste caso com a agravante do autismo, se não é ele o agressor? 
É evidente que é uma solução com menos risco para quem tem de tomar uma posição mas uma solução medíocre. Fico a matutar na mensagem que fica para aqueles miúdos que, independentemente do castigo que lhes calhar, é de que no final acabam por "expulsar" da escola a pessoa que escolheram agredir. E é só isto, uma escolha! Escolheram agredir um colega pela sua diferença, como se ser diferente fosse algo errado. Quantas das pessoas que conhecem são neurodiversas ou têm uma incapacidade? Ele é um miúdo meigo, divertido, educado e amigo de todos os que o tratam bem e até de alguns que o tratam mal. E é um miúdo que tem feito um esforço hercúleo para seguir normas sociais que nem sequer entende, portanto, alguém me explique a razão de alguém numa comissão me perguntar se já ponderei mudá-lo de escola porque isso talvez seja o melhor para ele com o argumento de que a escola é muito elitista e trabalha para os quadros de mérito, logo, a competitividade é muita e não há um sentimento de grupo, de orientação comum, de trabalho em equipa. 

A procissão ainda vai no adro e eu provavelmente serei a insatisfeita do costume mas não vou deixar de tentar provar que a inclusão é muito mais bonita fora do papel do que por escrito ou pendurada em fitinhas e balões. 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

A "prima" confundiu tudo...

Fazia um scroll no telemóvel e ri-me ao ver uma publicação do lolx no Instagram. Macaquita espreitou o ecrã do telemóvel e perguntou:
-Estás a rir-te de quê?
-Desta publicação. - e mostrei-lhe o ecrã. 
-Não percebi!
-Deve ser tua prima, em vez de escrever cama desdobrável, a pessoa anunciou cama desfavorável. - disse-lhe em tom de brincadeira assumindo que não tinha lido a legenda. Ela, com ar sério e confuso:
-Qual prima? - comecei a rir, ela com um ar cada vez mais confuso mas a rir ao mesmo tempo. -Mas qual prima, mãe? A sério, que prima?


sábado, 2 de abril de 2022

Repost porque hoje, 2 de Abril, é dia da conscientização para o autismo.

 Talvez fosses azul


Dizem que és azul, que é essa  a cor de todos os meninos como tu, talvez não seja por acaso que é o azul que preferes, assim talvez se explique também porque é a minha cor preferida. Todavia, não te vejo azul, os meus olhos tocam os teus e vejo-te de todas as cores, da cor de todas as crianças, da cor das crianças de todas as cores. E se tivesse de te escolher uma cor, escolhia a cor da tua alegria, mais que azul és feliz mesmo nos dias em que não te deixam escolher a bola de picos, aquela azul que é a tua preferida e as lágrimas tomam os teus olhos até me encontrares num abraço.

Que cor teria o meu amor se o amor se medisse em cores? Talvez fosse azul se o azul fosse a cor de um amor desmesurado. Porém, sem medida não lhe posso dar cor, resigno-me ao arco-íris, presumo que se convocar todas as cores poderei apresentar a medida aproximada do meu amor por ti.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Estou pronta para fazer um dicionário de macaquitês!

No carro, a caminho da escola macaquita conversava com o amigo e colega de turma sobre o dia em que estiveram a jogar com uma equipa de futsal aqui da terra.
-Sabes, eles vão jogar ao Afeganistão. - diz ele.
-Não é Afeganistão, é aquele país do feijão! - remata macaquita.
-Azerbeijão?! - digo eu convicta de que só poderia ser este.
-É esse! - confirma. Olho de soslaio para o pai, ar incrédulo, enquanto sussurra "País do feijão..."


quarta-feira, 23 de março de 2022

Não me preparei para ter um filho deficiente, acho que nenhum pai ou mãe está a contar com isso e eu também não estava. Foi, no entanto, um processo muito rápido, talvez porque nunca houve aquele estigma da aceitação, foi mais um “o que é que há para fazer?”.
Também não me preparei para aturar pequenos rufias, cobardes, reincidentes que, acobertados pelos pais, pensam que podem tudo, portanto, joguei a última carta. Não havendo nestes casos, qualquer tipo de compreensão possível, foi de novo um “o que é que há para fazer?”
Aceito que as outras pessoas, sejam elas outros pais, professores ou crianças nem sempre estejam preparadas para lidar com crianças diversas mas não aceito ou permito que a diferença seja mote para a agressão. Não aceito que se escudem na ignorância ou no "efeito rebanho". Educo os meus filhos no pressuposto da diferença, de que ninguém tem de ser igual a ninguém mas que temos de respeitar cada um na sua individualidade e nunca lhes permitiria que imiscuíssem das suas responsabilidades, não lhes toldo a visão, não lhes condiciono o pensamento, nunca lhes escondi tristezas ou dificuldades mas deixo-os tomar a suas próprias decisões cientes de que delas sairão consequências que poderão ser boas ou más.
Vou levar esta luta até ao fim, não pretendo ganhar nada que não seja paz, tranquilidade, inclusão e respeito, acima de tudo, que o meu filho possa ser feliz e aceite na sua plenitude e que não torne a ser cuspido, humilhado, agredido, sufocado por pequenos delinquentes que neste momento devem ter o buraquinho do cu mesmo muito apertado.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Esperta

-Sabes o que estive a fazer ontem à tarde? -pergunta-me macaquita. 

-Não, diz lá. 

-Estive a recolher toda a poeira que consegui da varanda e pus num fraquinho. Agora tenho uma lembrança de África e nunca estive lá


quarta-feira, 16 de março de 2022

Rinoplastia

Macaquita resolveu desenhar-me, observou-me de vários ângulos, pediu-me que não fizesse caretas e eu só lhe pedi que me fizesse bonita. Chegada a hora de jantar e já sentados na mesa:

-Olha mano, o teu nariz é igualzinho ao da mãe. 

-Eeeeeiiii, estás a dizer que sou narigudo?! 



quarta-feira, 9 de março de 2022

Nunca me senti tão "inchada"

-Ai mãe, és tão bonita... e cheirosa... - diz ele, pausando deliberadamente as palavras no intuito de me engraxar, ao mesmo tempo que me faz festas no cabelo. 
-Deves estar para fazer alguma. - respondo-lhe a rir. 
-Não, a sério mãe, és mesmo. És bonita... e macia e... e tufada. 
Ainda bem que a minha figurinha minguada não me deixa com problemas de auto-estima. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Eu cá diria Países Baixos

-Hoje vi um pequenino vestido de Luke lá na escola, tão fofinho! Agora os fatos têm músculos e tudo. - começa macaquita.
-Seria Hulk? - digo eu.
-Isso e depois o L. disse-lhe olá e ele ficou muito envergonhado. E a mãe, aquela que era terapeuta do mano, sabes que mora na casa amarela? - dizia em esforço a tentar recordar o nome.
-Sei, a Iolanda? - pergunto.
-Pois, eu ia dizer Inglaterra, sabia que tinha a ver com um país.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Vai uma fresquinha?

Uma equipa da PSP esteve na escola a falar com os miúdos sobre os perigos da  internet. Macaquita contou com todo o pormenor os casos descritos pelo agente e mais alguns partilhados pelos professores. A dada altura e em jeito de piada, diz para o irmão:

-Pois, é o que tu me fazes, sagres bullying. - diz entre risos. 

-Faz o quê? - pergunto eu, deveras confusa. 

-Sagres bullying! Foi o que o polícia disse. 

-Não terá sido Cyberbullying? - corrijo. 

-Eu percebi Sagres, ou então o polícia disse assim a carregar no R, Cyberrrrr.... 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Bullying, outra vez?!

Não me recordo de quantas vezes falei de bullying aqui, ou de histórias que envolvem bullying, mais ou menos dissimulado.
Não sei quantas vezes fui à escola falar com os professores para tentar anular os comportamentos de bullying dos colegas para com macaquito.
Não sei quantos e-mails já enviei para os diretores de turma, a explicar situações de bullying para com macaquito, ocorridas nos intervalos das aulas. Para que conversem com os miúdos, com os pais, sem consequências disciplinares, para apaziguarem a situação.
Não sei quantas vezes já "desvalorizei" situações de bullying nas conversas com o meu filho, apenas para que ele as consiga desvalorizar também e dar os passos que lhe peço, ignorar, continuar a andar e esquecer. Como se fosse possível...
Não sei quantas vezes macaquita chegou a casa alterada porque teve de intervir com miúdos da escola que estão a atacar o irmão, pondo em causa a sua integridade física para o defender de putos que chegam a ter mais vinte centímetros que ela.
Sei, que apenas uma vez, fiz a loucura de esperar um puto perto da escola e apertei-o tanto no braço que fiquei com os dedos a doer. Resolvi, da pior maneira possível, uma situação que se arrastava há dois anos e que ninguém na escola tinha conseguido resolver.
A minha frase de hoje para os meus dois filhos foi: tenho vontade de entrar na escola e ir duma ponta à outra, a distribuir lambadas e acabar com isto de uma vez por todas. 
Já li e reli todos os artigos que dizem respeito a bullying e autismo, isto porque há dias em que me sinto tão desesperada e estúpida que acredito que vou encontrar a solução milagre numa pesquisa do google ou num artigo de jornal.
"As pessoas com deficiências têm sete vezes mais probabilidade...."
"Ensine o seu filho a lidar com o bullying..."
Ensino o meu filho? A sério? Ensino os meus filhos desde cedo que não devem gozar com ninguém seja por que razão for, que se tiverem alguma coisa a dizer que o digam mas com a educação e o respeito que gostariam de ter de volta. Que defendam os precisam deles e não os mais populares. E eles aprenderam, de muito pequeninos... Fico muito orgulhosa quando os professores da minha filha enaltecem a sua maturidade, empatia e os comportamentos, irrepreensíveis! Macaquito por vezes tem comportamentos desadequados e de imitação mas isso vale ser castigado, independentemente da sua compulsão e incapacidade de se regular. 
Fala-se muito de bullying quando aparece um vídeo nas redes sociais ou quando acontece uma desgraça mas se as escolas tivessem câmeras nos pátios ou corredores, haveria com certeza, vídeos para os próximos cem anos. 
Macaquito estava tão transtornado hoje que bastou olhar para os punhos cerrados para perceber que a escola não tinha corrido bem.

-Não, não quero falar sobre o meu dia. Fala com a mana, ela conta-te! - e mais não disse.

Como é que se acaba com isto?


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Primeiro amor...

-Agora não sei bem como é que isto se faz... Tenho de dar-te presentes e ser fofinho, não é? 

-Não precisas de me dar presentes, é só seres fofinho! 

Se os meus filhos algum dia permitirem que alguém lhes aperte o pescoço, que os violentem com palavras ou, num cenário oposto, sejam eles os agressores, nesse dia saberei que falhei como mãe. Se os amores adultos se mantivessem com o respeito dos primeiros amores, não seria necessário estar nas redes sociais a discutir o que configura ou não, crimes de violência doméstica

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Não me ocorreu quando escolhemos o nome para ela mas tenho pena

-Aquela cantora também é "do azeite"? - pergunta macaquita. 
-Não, é fadista. - respondo-lhe. 
-Pois, chama-se Ana João? 
-Não,  Gisela João, Gisela! - corrijo dando ênfase ao Gisela. 
-Gisela, hummmm... É um nome bonito. Faz lembrar morcela. 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Quem diz a verdade...

Enquanto jantávamos, tomei as rédeas de uma conversa para explicar a macaquita algumas coisas sobre a vacinação e as decisões que, por enquanto, só competem a nós pais. Macaquito resolve intervir:

-Sabeeeemmmm, eu até queria dizer alguma coisa sobre isso mas não vou dizer nada porque provavelmente vou dizer uma coisa qualquer sem sentido. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Nada como ter o dicionário na ponta da língua

Notícia em rodapé: Marcelo Rebelo de Sousa vai indigitar António Costa. 

-Mãe, o que é indigitar? - pergunta macaquito. 

-Fácil, vai-lhe carregar nos números. - responde prontamente macaquita. 

Carrega, Marcelo! 


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Eu paro se ela parar... de falar

-Mãe, sabes o que é um acólico, não sabes? 

-Acólito, macaquita. 

-Isso, aquela coisa das igrejas... - explicou. -Noutro dia ao almoço a Bia disse "o meu avô era acólito." E eu "a sério? O teu avô era alcoólico? Coitado!".

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Fico tão confusa

Enquanto lhe punha creme nas axilas devido a uma irritação provocada pelos "chouriços" da natação, macaquita olha para o umbigo e dispara:

-Não sei porque é que temos de ter cordão umbilical. A gente não vai a lado nenhum. - ri-se do seu próprio disparate. 

-Então macaquita, é através do cordão umbilical que o bebé recebe nutrientes e oxigénio... - prendo-me na dúvida, não sabe ou está a gozar? 

-Ah bom! Pensei que era para o bebé não fugir, tipo uma trela. - e riu-se muito.

E eu? Eu continuo presa na dúvida... 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Eu cá dizia "belícia"

Hora de jantar. 

-Mãe, este arroz tem maravilhas do mar? - levei dez segundos a atingir. 

-Delícias, macaquita, delícias! E não, é arroz de polvo. 

Deliciam-me estas fragilidades linguísticas dela, não há dia que não me façam rir, como não há dia que não me levem ao desespero. É na escola que mais se nota, tem de trabalhar muito para alcançar metade do que os outros alcançam, tem muita dificuldade de interpretação. Não me preocupam as notas, preocupa-me a saúde mental dela que se sente diminuída em relação aos colegas, por isso, não fala, não pergunta, não tira dúvidas em sala de aula. 

Às vezes, inadvertidamente, faço-a chorar quando estudamos juntas, o arrependimento (inútil) chega-me logo de seguida, é quando as lágrimas lhe rolam que compreendo a razão de não fazer perguntas aos professores. A nossa felicidade não é enfeitada, tem dias que se faz de ralhetes, lágrimas, cansaço e medos. Colmata-se tudo isto com beijos e abracos, que sempre sabem melhor que maravilhas do mar. 

domingo, 16 de janeiro de 2022

Tenham vergonha, pá!


"Fernando Tordo fez declarações polémicas", vários artistas e personalidades ligadas à cena musical sentiram-se menorizados pelas suas declarações e fizeram questão de mostrar o quão injustas foram as tais declarações. Tanta gente abespinhada com as palavras do emblemático artista, tanta gente a quem chamo ignorantes, cambada de ignorantes! Nenhum percebeu a real gravidade das palavras do Tordo.  O próprio afirma que agora diz tudo como os malucos e por isso arroga o direito de roubar a dignidade aos "atrasados mentais". Pois eu arrogo o direito interpretar estas declarações como um ataque preconceituoso às pessoas com atraso mental. Capacitismo, é o que é.  A Lei n.o 46/2006 de 28 de Agosto proíbe este tipo de prática discriminatória e a subversão das palavras é uma prática discriminatória.
Lamentavelmente, a ignorância que tantos demonstraram publicamente porque se sentiram ofendidos com as palavras do "artista" e não perceberam que as únicas pessoas que se podem, devem e foram ofendidas nas suas declarações foram as pessoas com algum tipo de incapacidade mental, esses sim são dignos de ouvir orquestras, ter acesso a arte e cultura, seja de que artista for. Não podem é ser roubados da sua dignidade por ofensor e "ofendidos"!


 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Coisas da cabeça dele

Segunda-feira, fim de férias:

-Porque é que tenho de ir para a escola? Quem me dera ter um aviário. 

Terça-feira, ao deitar:

Eu: -Espero que esta noite não haja passeios noturnos, nem brincadeiras com perfumes.  

-Mas mãe, estava cheio de calor e todo transpirado. Aqueles lençóis são muito quentes! 
(na noite anterior lembrou-se de ir para casa de banho despejar um frasco de perfume por todo o lado, menos nele. Acordei mais de 20 vezes com a boca a saber a perfume...) 

Quarta-feira, depois da escola:

-Porque é que os professores mandam trabalhos? Eles não percebem que a minha vida é muito difícil. 

Quinta-feira, ao almoço:

-Mãe, é difícil mandar vir um guarda-costas da internet? 

Sexta-feira:

-A Dona G é muito engraçada, ri-se sempre das minhas piadas, mesmo quando são aquelas secas. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Três palermas à conversa

Limpo desenfreadamente o vidro da lareira na pressa de a acender visto que a descida das temperaturas já se faz sentir em casa. Macaquita está sentada na secretária em frente ao portátil e macaquito vê televisão com o som demasiado alto. Apercebo-me que conversam mas não ligo ao que dizem até que macaquita arremessa em forma de grito:
-És mesmo burro!
-Ei! Então, sabes bem que não gosto disso.
- digo eu. 
-Mas mãe, ele não está a perceber nada e só diz asneiras. Eu estava a explicar que vai passar um cometa ou asteróide ou sei lá...
-Meteoro?
-Isso! Vai passar aqui no planeta Terra e é do tamanho de um autocarro... 
-Aqui no planeta Terra?
- atiro eu com ar de gozo. 
-Oh! Lá no espaço mas à volta da Terra... Tu sabes... E ele pergunta "Vai passar em (nossa cidade)? ". Isso é burrice!
-Se calhar ele queria apanhá-lo. - neste momento, macaquito, que se tinha mantido impávido, esboça um sorriso. 
-Hã?! O quê, mãe? - diz completamente baralhada. 
-O autocarro!