domingo, 2 de abril de 2017

Dia mundial da conscientização do autismo

Hoje vestimo-nos de azul, na esperança de que bastasse, é só uma cor para alguns, para muitos é como uma impressão digital, para mim é amor. Beijo o meu azul logo de manhã com a memória que este dia é um pouco dele e ele nem imagina que este beijo tem um significado acrescido mas atira-me um "adoro-te mamã".
Passeamos o nosso azul sob o olhar indiferente de quem por nós passa, não lhes significa nada. Hoje vestimo-nos de azul, na esperança de que baste.

domingo, 26 de março de 2017

Homógrafas

Dormimos nos avós, depois de uma noite de borga com os amigos de infância, sabe bem ficar na cama até o corpo deixar de ter posição e as dores de costas ganharem à preguiça e ao frio. Ouvi os pequenos desde muito cedo mas a tranquilidade de saber que o meu pai não os deixa irromper quarto adentro cedo demais, permite-me definhar na cama ouvindo as conversas como se as paredes fossem de papel.
-Avô, avô? - chama macaquito da sala. Como resposta um silêncio anormal.
-Avôôô, anda cá.
Do avô nem sinal, a avó, galinha que é apressa-se até à sala.
-Precisas de alguma coisa, macaquito? - diz-lhe carinhosamente.
-Olha, eu não te chamei, o teu "O" não tem chapéu, tem só um acento, portanto volta lá para as tuas coisas e diz ao avô para vir aqui.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Orgulho a dobrar

Ontem chegou da escola radiante, recebeu o teste de inglês, 92%.
-É Muito Bom mamã, sabias?
-Não é muito bom filho, é Excelente!
-Sabes? O F. desta vez conseguiu, 73%.
Valeu a hora e meia de estudo com os dois, ele e o amigo do gato. Nunca me passou pela cabeça que em apenas um final de dia de estudo, com duas crianças autistas, conseguisse tão bons resultados. Ofereci-me para estudar com o amigo porque no primeiro teste, ele não tinha conseguido fazer nada, teve zero, o pai lamentou-se que não o conseguia ajudar. Foi com algum receio que o trouxe pois praticamente só o conhecia em contexto escolar e as reacções destas crianças à mudança de rotinas podem ser desastrosas. Fizemos desenhos sobre o tempo, pintámos as cores, brincámos com vestuário e soletrámos todo o vocabulário em inglês, hora e meia de brincadeira aliada ao estudo, dois resultados brilhantes. 
É isto que me faz feliz, nem imaginam o quanto.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Tenho muitos livros por ler

Fomos buscar macaquita à escola e como chegamos 10 minutos antes da hora, saquei do livro que trago sempre na mala e perguntei-lhe se podia ler ou se queria conversar.
-Podes ler mamã, eu fico a ouvir a música.
20 segundos depois.
-Mãe, podes ler!
-Estou a ler, macaquito.
-Mas não estás a mexer os lábios.
Pela primeira vez percebi que ele ainda não tinha entendido que se pode ler em silêncio, na verdade sempre que leio com eles fazêmo-lo em voz alta, eu leio para eles, eles lêem para mim. 


E pensando bem nisto, constato que em 9 anos poucas foram as vezes que consegui ler os meus livros quando estão comigo em casa, a menos que estejam a dormir...

Demasiado

Acordam cedo, demasiado cedo, quando a solo, enfiam-se invariavelmente na minha cama demasiado pequena para três, talvez sejam eles que estão demasiado grandes. Quando a dois, vão para a sala, falam demasiado alto, o volume da televisão no máximo e por muito que lhes esconda o comando estão demasiado espertos e conseguem aceder aos recursos do monitor. Estou demasiado cansada, não me falta a paciência mas por vezes faltam-me as forças e a coragem para me levantar da cama tão cedo quanto eles e fingir que que não vejo demasiadas birras e outras tantas guerras. Tenho demasiada roupa para lavar, faço demasiadas refeições e perdemos demasiado tempo com trabalhos de casa. Falta-me tempo para os cansar, para correr com eles no parque após as aulas, têm demasiada energia quando chegam a casa. Sinto-me demasiado sozinha, demasiado mãe, pouco companheira. Valem-me as gargalhadas, os sorrisos, as parvoíces e os abraços, nunca em demasia. Quando a noite nos aconchega, deito-me demasiado tempo nas suas camas demasiado pequenas para dois e às vezes por lá adormeço. Mesmo assim, há sempre um pequeno nada naquele pedaço de mimo que faz demasiado feliz.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Uma coisa nova por dia

Tínhamos planeado uma ida ao planetário, por azar, a consulta calhou no dia da semana em que está encerrado. Prometi que o levaria a um sítio novo, escolhi Alvalade. Comprámos os bilhetes da visita guiada e foi uma paródia. Tenho a certeza que será recordado pelos presentes e pelo guia durante algum tempo. Falou tanto ou mais que o guia, a dada altura apercebo-me que o guia traduzia o que ele dizia aos dois ingleses presentes, apesar de eles se rirem mesmo sem tradução. Já ouviram falar na mítica porta n°10? Todos os presentes foram "coagidos" por macaquito a esfregar o leão antes de passarem por ela, todos os presentes anuíram e foi vê-los a passar a mãozinha no leão dourado. Acho que se criou uma tradição!