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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Cá se fazem, cá se pagam.

Hora de almoço costumeira, fazer piscinas entre o prato e a escola de macaquitos para conseguir almoçar, dar almoços, deixar na escola de novo e chegar a horas ao trabalho. Paro o carro numa rua paralela à escola deles e apresso o passo até à esquina frente ao portão para que me vejam e se despachem. Ao chegar à ponta do passeio, aguardo que passe um carro antes de atravessar, a condutora que me conhece faz-me sinal para passar, dou um passo enquanto agradeço a gentileza através de um aceno com a mão, nesse instante a biqueira da bota bate levemente no empedrado e dou uma queda monumental. Aquele segundo no ar em que percebo que não tenho hipótese, já estou a pensar em calão. Aterro no meio da estrada em frente ao carro, além da mão esquerda, são os joelhos que embatem ferozmente no alcatrão, digo asneiras baixinho. O reflexo inicial, pelo menos na minha cabeça, é fazer que nem anjo da Victoria Secrets, seguir linda e esplendorosa na passerelle, tudo o que consigo é sentar-me! As dores excruciantes toldam-me os movimentos e só me apetece chorar. A condutora que parou para eu passar, aparece com um ar aflito, não consigo descortinar se era preocupação ou se mordia a língua para não se rir da pessoa que, tal Luis de Matos, se esfumou na sua frente. Do outro lado da rua vem outra senhora que também apreciou a cena, visivelmente atrapalhada pergunta-me se preciso de ajuda. Respondo que sim, que me ajudem a levantar que não sou capaz, seguram-me os braços como se tivesse 90 anos (era assim que me sentia, ok?!) e ajudam-me a voltar ao passeio. Perguntam-me se quero uma ambulância, respondo que não, que só preciso de uns minutos para me recompor, se bem que a minha dignidade demorará bem mais que isso. Entretanto, formou-se um engarrafamento porque a rua, de dois sentidos, tem sempre carros estacionados no sentido contrário ao da senhora que parou. Digo-lhe que pode seguir, que estou bem mas no fundo só estava a dispensar o público que observava a cena como se se tratasse de um acidente na autoestrada. Atravesso finalmente a estrada, com as calças rotas e sujas de sangue e peço aos miúdos que não me apressem pois disfarço dolorosamente a vontade de coxear. Perguntam-me o que aconteceu, conto resumidamente e oiço de macaquito a resposta que merecia ouvir há muitos anos:

- A sério mãe, rompeste as calças? 


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ser crescida

- Mamã, a escola ao lado da nossa é para os meninos do 5º ano, não é?
- Sim, pertence ao mesmo agrupamento.
- E o mano vai para lá para o ano?
- Se tudo correr bem vai, se estiver preparado.
- Eu acho que ele não está preparado, é melhor ele não ir.
- Logo se vê, ainda falta muito para acabar o ano.
- Pois mas eu tenho medo que ele vá, ele até pode estar preparado para as aulas mas tenho medo que lhe batam ou que gozem com ele.
Partilhamos exactamente as mesmas preocupações, inquieta-me perceber que o fardo, que lhe passo involuntariamente, seja talvez demasiado pesado.  Queria agora que ela vivesse a plenitude dos seus 7 anos, que fosse só criança ao invés de ter de gerir medos e emoções que não lhe estão destinados. A dada altura da sua pequena vida, achei que lhe devia explicar por que raio é que tolerava certos comportamentos do irmão e não a ela, expliquei-lhe também que ela deveria ser mais tolerante com ele mesmo que recortasse tudo mal ou não soubesse desenhar uma casa, ela teria uns 4 anos e respondeu-me que tinha entendido tudo, que o irmão "tinha uma doença, na cabeça", não foi nada do que lhe disse mas foi assim que ela entendeu. Nesse dia sorri, achei graça à sua percepção, longe de mim imaginar que nesse dia lhe vesti um colete de areia, daqueles que tanto se fala agora, que são bons para os meninos como o irmão e que pesam 7 quilos, só que o colete não lhe deu apenas informação proprioceptiva, criou-lhe um vínculo, uma imposição de maturidade, uma obrigação que eu nunca quis que tivesse, ou pelo menos, não tão cedo. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

De volta à parvoíce

Voltávamos a casa no domingo, eu e macaquito, ali vínhamos nós nas habituais e intermináveis conversas a que se permite meia hora de viagem, de repente e vindo do nada lembrou-se de me perguntar que dia de Agosto era, disse-lhe que era dia 20 e entrou num pranto. O seu amigo D. tinha feito anos no dia 14 e ele não lhe tinha dado os parabéns (ainda fico estupefacta com esta capacidade de decorar números, datas e acontecimentos que passam ao lado da maioria  das pessoas). Tentei acalmá-lo dizendo-lhe que não fazia mal, que quando estivesse com ele apenas teria de lhe dar um abraço e dizer que se tinha lembrado. Fez-me prometer que no dia seguinte iríamos visitar o amigo ao ATL que ambos frequentaram durante muito tempo, assenti mas expliquei que era provável que alguns amigos não estivessem lá por ser Agosto.
Segunda feira de manhã, mal tinha acordado e já perguntava quando íamos, foi isto o dia todo até que lhe fiz a vontade. Pegou na sua pequena guitarra com o intuito de cantar os parabéns ao D. assim que chegasse.
Como tinha previsto os amigos mais velhos não estavam e o D. também não, brincou com os mais pequenos e matou saudades dos triciclos e das educadoras. Voltou a casa feliz e menos preocupado com a sua "falta".
Já à noite, saiu-se com esta.

A capacidade que tem de imitar na perfeição as pessoas na forma de falar, os sotaques, os trejeitos... só para quem conhece mas faz-me rir a bom rir.