Chegámos à casa da aldeia ou, como dizem uns amigos muito queridos
(e tontos), ao Turismo Rural da Fonte de Pedra, entusiasmadíssimos
para passar uma tarde. Mentira, fomos mesmo só para limpar e dar um
jeito no quintal, por isso, a única pessoa entusiasmada era mesmo
macaquito pois não participa em nadinha que envolva esforço físico,
mas é mesmo bom a moer-nos o juízo. Desculpem, comecei o parágrafo
a mentir porque na verdade, só estávamos no início da rua quando
tudo se precipitou. Foi aí que encontrámos a vizinha da frente, a quem
carinhosamente intitulamos de Segurança 24 visto que nos dá
um olho pela propriedade quando não estamos. Enquanto dizíamos um
olá, macaquito resolve sair do carro.
-Olha, eu vou à
frente abrir o portão. - anuímos, ele começa a andar, e quando
estamos para arrancar atrás dele, o pai apita o carro na
brincadeira. Longe dele imaginar que isso iria espoletar um
episódio de susto, não me lembrava da última vez que aconteceu, o
certo é que parecia que tinha sido atingido a tiro, levantou os dois
pés do chão e caiu como se fosse uma tábua. Ouvi o baque da cara
dele a bater no chão e pensei imediatamente que tinha ficado sem
dentes. Saí do carro em segundos e só via sangue, agarrei nele da
forma mais estúpida que me ocorreu naquele momento e andei o resto
da rua até casa com ele por um braço. Já dentro da propriedade,
abri a torneira da Fonte de Pedra (vejam só isto, tontos) e tentei lavar o sangue,
foi aí que percebi que não tinha um filho desdentado mas sim um
filho que parecia ter sido mordido no queixo por um cão raivoso,
além das mãos, braços e pernas queimados do alcatrão
Pedi a macaquita que
me trouxesse uma toalha lavada, mudei-lhe a t-shirt, para não
parecer que se estava a esvair (mais ainda!) e levei-o para o
hospital.
Os oito quilómetros
que separam a casa do hospital pareceram oitocentos, especialmente ao
nível auditivo, supus que nunca mais recuperaria a audição depois
daquela gritaria toda. Entrámos nas urgências e a primeira pergunta
que ocorreu ao segurança, muito menos competente que a nossa
vizinha, foi:
-Então, há azar? -
apeteceu-me responder que não, que só tínhamos entrado para um
cafezinho e que macaquito preferia chá, daí a gritaria. Entrámos
diretamente para a sala de urgência onde, acredito que TODOS, os
médicos e enfermeiros de serviço assomaram à porta dos
respetivos gabinetes para perceber que forrobodó era aquele.
Disfarçadamente, expliquei a uma enfermeira que macaquito, apesar de
parecer um adolescente drama queen, era autista e que estava
em pânico, que não se iria queixar uma única vez de dores mas que
iria panicar com todo e qualquer procedimento hospitalar, portanto,
talvez fosse melhor arranjarem-nos um local discreto para continuar o
serviço ou arriscavam-se a perder todos os outros pacientes para um
hospital psiquiátrico.
Fomos encaminhados
imediatamente para a cirurgia, a médica que nos atendeu não podia
ter sido mais humana e competente, a enfermeira que lhe tratou todos
os centímetros de corpo sem pele e queimados do alcatrão foi
incansável e inteligente, deveras inteligente. Sabem como conseguiu
que ele acalmasse antes de seguir para o RX? Emprestou-lhe uma
cadeira de rodas. Foi o sossego a partir desse momento para todos,
excepto para os pacientes na sala espera da cirurgia, a quem moeu o
espírito com os seus relatos do acidente, perguntas sobre o estado
de saúde e manobras artísticas na SUPER MEGA CADEIRA DE RODAS!
Foi muito assustador
mas o pior já passou, claro que não estamos livre doutra, se bem
que espero que não seja muito próxima ou qualquer dia fico-me com
uma paragem cardíaca e depois não há ninguém que ature estas
merdas.
Só vim aqui relatar
isto tudo para saberem que estamos vivos e de saúde, apesar das
novas cicatrizes, ele no corpo e eu na alma mas também para relembrar
as pessoas menos conscientes destas problemáticas que sejam
empáticas, mesmo quando vos parecer que o rapaz maior que a mãe
está a fazer uma birra porque tem de levar meia dúzia de pontos nos
queixos.