quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Da perda

Quase sete meses passados sobre a morte do meu pai, macaquito começa agora a compreender a dor da saudade, a maturidade emocional que lhe achámos era, na verdade, incompreensão. Chora a impossibilidade de rever o avô, percebe agora que é irreversível, que não podemos ir buscá-lo lá ao sítio onde o deixámos. Mas o avô não queria morrer, diz-me com a voz embargada e eu explico-lhe da maneira que sei, com as palavras mais doces que sei, que a saudade pode ser boa, que é o bocadinho dele que temos no nosso coração que não nos deixa esquecê-lo e que será sempre parte do que somos. Digo-lhe, sem acreditar, que esteja onde estiver o avô nos acompanha e nos protege e estará feliz se nós também estivermos, minto-lhe deliberadamente porque não tenho outra forma de lhe mitigar a dor.
No fundo não sei nada da dor dele, ele explica-se por analogias a que tento dar expressão e valor mas não sei se consigo com exactidão uma medida para essa dor. E ao mesmo tempo que se confronta com a dor da morte percebe da pior maneira que também se perde pessoas vivas, depois do silêncio confuso a que me votou nos últimos dias, chovem agora chorrilhos de perguntas a que não sei de todo responder. Invento razões que ignoro, digo-lhe que às vezes as pessoas se sentem tão sozinhas que não querem ver ninguém mas não espero que compreenda. Enxugo-lhe as lágrimas e envolvo-o entre os meus braços e espero desta forma apaziguar as suas emoções porque sei que não há palavras que o consigam consolar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A difícil arte de mandar

Enroscados na cama dele, conversamos sobre o que nos entreteve durante o dia, ele faz perguntas sobre o meu trabalho e eu sobre a escola e as actividades, até que ele dá a volta à conversa.
-Mãe, a partir de agora sou eu a mandar e tu vais ter de fazer as minhas tarefas.
-Ai é? Então e quais são as tarefas?
-Arrumar os brinquedos e brincar como Audi!
-Parece-me bem mas visto que vamos trocar de papéis, para mandares terás de fazer as minhas tarefas. - digo-lhe expectante.
-Ok e quais são as tuas tarefas?
-Cozinhar, tratar da roupa, limpar a casa, arrumar....
-Cozinhaaaar? Eu não sou gastrónomo! 
-Eu também não mas temos de comer.
-Pronto, está bem. O que é que tenho de fazer amanhã?
-Tens de acordar muito cedo, às 7h e depois tens de preparar o pequeno-almoço para todos, preparar as roupas para ti e para a mana, os lanches e até te deixo conduzir o carro para nos levares à escola.
-O carro? Eu não tenho carta de condução, tontinha. 
-Ok, eu levo o carro e tu tratas do resto.
-Está bem mas não sei se consigo acordar cedo, não tenho despertador.
-Eu ponho o meu despertador aqui quando me for deitar.
-É melhor não, toca muito alto e eu vou-me assustar. - pensei que estivesse arrependido de aceitar as tarefas e que a coisa ficasse por ali. Pensei mal!
De manhã, assim que saio do banho dou com ele a correr para a minha cama e a dizer ao pai que se deixasse estar que ele ia preparar o pequeno-almoço. E assim fez, arranjou leite para todos, bolachas para a irmã, a papa para ele. Acordou a irmã com mimo, tal como eu faço, comeu, arrumou a loiça como conseguiu, perguntou-me o que fazer a seguir e foi-se vestir.
-Mãeeeeeee, dás-me umas calças que eu não chego lá? - vou ao quarto dele e já tinha escolhido e vestido meias e camisolas, enquanto vestia as calças perguntou-me o que fazia a seguir.
-Quando acabares de te vestir podes ir fazer as camas. - olhou para mim com um ar aterrorizado e diz muito chateado.
- Tenho a impressão que sou pau para toda a obra!

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Baseado no conto "O rato do campo e o rato da cidade"

Já nem sei o que levou à conversa, estávamos no carro a caminho da escola.
-Eu gostava mesmo de viver numa vivenda.-diz macaquita.
-Tens bom remédio, pegas no pai e vão os dois para a "aldeia", eu fico com o mano aqui e vemo-nos ao fim de semana.
-Tu não percebes, é como a história que o pai inventou no outro dia, os gatos da cidade comem do lixo e os gatos do campo caçam ratos para comer. Eu não quero ser um gato da cidade e comer do lixo. Quero ir para o campo caçar ratos....
... (pausa muito prolongada)

(continua) ...ah! Pois, os gatos do campo são como os humanos que caçam porcos para comer!
-Ah pois é! A malta do campo quando vai ao supermercado anda toda de caçadeira em punho para trazer porcos para casa. - respondo eu sem conseguir evitar uma barrigada de riso.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Alguém devia ter uma bola vermelha ou como lecionar disciplina positiva...

Uma manhã destas macaquita não se sentia muito bem, tosse e dor de cabeça, dizia ela. Perguntou se podia ficar em casa, como não tinha febre insisti para que fosse à escola. Já à porta da escola teve um ataque de choro, puxei-a para o meu colo e tentei acalmá-la.
-Porque é que estás a chorar assim? Não te sentes bem?
-Eu não quero ir à escola, posso ficar em casa hoje?
-Macaquita, se não te sentires bem ou tiveres febre, pedes para ligarem para mim e eu venho buscar-te.
-Mas a professora grita muito.
-Contigo? 
-Não, não grita comigo mas grita muito alto com os outros e eu nem consigo pensar.

E depois há os bons professores...

domingo, 18 de novembro de 2018

Sol de São Martinho

Foi capricho meu pensar que subiria a escadaria rumo ao espaço e encontraria no seu topo as respostas a alguns dos teus enigmas. Sei que é em Saturno que te encontras, que em Marte tens a tua segunda cor preferida e em Neptuno a primeira. Depressa percebi que não há respostas nas estrelas, que passear pé ante pé na Via Láctea não me faria encontrar-te, não és de outro planeta, não és satélite nem cometa, és azul do espaço e é ao espaço que tornas para te encontrar mas não é lá que moras.
Revolvo galáxias repletas de outros planetas e constelações e não encontro absolutamente nada que me permita compreender os teus mistérios, volto à Terra sem respostas mas cheia de certezas, é no meu colo que encontras consolo, nos meus abraços apaziguas incertezas e saudades e nas minhas palavras procuras conselhos até para as tuas inconveniências. E isto é o que me basta, a certeza do amor que temos.




segunda-feira, 22 de outubro de 2018

As três luas

Já há muito tempo (tanto que não me lembro desde quando) que macaquito me pergunta sempre que se lembra o que quer dizer o sinal de trânsito com três luas. Fartinha de puxar pela cabeça e não conseguir perceber, perguntava-lhe se era um sinal de informação, perigo ou obrigatoriedade e ele não me sabia responder. Desde muito pequeno que ele reconhece e sabe o nome da maioria dos objectos, mesmo os menos comuns, no entanto, sempre teve muita dificuldade em distinguir caso lhe sejam apresentados numa forma menos habitual, daí ter percebido desde a primeira vez que seria qualquer outra coisa que não luas mas andava muito curiosa sem conseguir chegar à resposta. 
Finalmente percebi quando passávamos numa ponte na autoestrada e ele me tornou a perguntar, mais uma vez nem tinha reparado mas lembrei-me que naquele sítio existe um sinal destes:
Confirmei com ele e sim, confere, na cabeça dele são três luas e não uma manga de vento e eu fico a pensar que é bem bonito ver luas num sinal de perigo É lá que anda sempre... na lua.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Não bastava ter de fazer um bolo sem glúten

Se calhar não se lembram da história do alaúde, cá em casa ainda nos rimos à conta dela. Contínuo sem entender se ele diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça ou se, na verdade, pensa muito sobre a importância dos objectos, o que é certo, é que o aniversário dele está a chegar e eu estou feita num molho de brócolos para lhe satisfazer o pedido deste ano.
-Mãe, domingo levantas-te bem cedo e vais comprar um detetor de metais.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Quando é que me tornei tão transparente...

Conversávamos deitados na cama dele, foi um dia grande e cansativo, ficam sempre coisas por dizer e é na hora de sono que melhor consigo chegar a ele.
-Mãe, estás bem?
-Sim filho, estou bem.
-É que estás a rir para mim mas a tristeza está a sair dos teus olhos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Alguém?

Macaquita contava-me impressionada o acidente de mota a que assistiu do recreio da escola, contava com os pormenores todos, veio um carro, acertou no senhor da mota que gritou e depois levantou-se e depois veio uma senhora ajudar e o senhor do carro também saiu mas o senhor da mota não se magoou...Quando percebi que não tinha sido nada de grave, comecei na brincadeira.
-Ainda bem que não fui eu, teria sido bem pior.
-Oh mãe! Isso não se diz. Gostavas de cair de mota?
-Claro que não, por isso é que estou a dizer que ainda bem que não fui eu.
-Coitado do senhor...
-Coitado do senhor do carro, ficou com uma amolgadela.
-Pára de gozar. O senhor podia ter-se magoado.
-Era novo ou velho?
-Sei lá, era da idade dos senhores dos correios.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Ao nível do Albarran no dramatismo

-Que é que estás a fazer?
-A coçar-te as costas, não gostas?
-Gosto! - de seguida faz-me uma festa na cara e dá-me um beijinho no nariz. -Eu adoro ser teu filho e adoro quando tu és minha mãe... Ahhhhh, se tu não fosses minha mãe, eu andava por aí sozinho, sem nada, sem pai, nem mãe, nem irmã, nem família... abandonado!

Uma trabalheira...

Depois de os mandar deitar vezes demais, mudei o canal de televisão e lá foram. Resulta sempre. Deitei-me um pouco na cama de macaquito e de seguida fui aí quarto da pequena que, como sempre, começou a fazer todas as perguntas que ficam pendente durante o dia.
-Vá, chega de perguntas, demoraram 20 minutos a vir para a cama por isso hoje não há mais conversa. - digo-lhe.
-20 minutos? Isso são quantos segundos?
-Quantos segundos tem um minuto?
-60!
-Faz a conta, 60 vezes 20...
-Sim mas e um dia, quantos segundos tem?
-Se um dia tem 24 horas e cada hora são 60 minutos tens de multiplicar 24 vezes 60 para achares os minutos e depois multiplicas esses resultado outra vez por 60 para achares os segundos.
-Essa conta é muito difícil, ajudas-me?
-Então 24x60=1440x60=86400 segundos
-Ehhhhh,  então o ponteiro pequeno tem de dar essas voltas todas?
-Sim. - respondi-lhe a rir. - O ponteiro dos segundos dá 86400 voltas todos os dias.
-Coitado, isso é muito trabalho. Um ponteiro tão pequeno...

terça-feira, 25 de setembro de 2018

A caricatura perfeita

Fomos buscar umas coisitas ao supermercado, assim que entrámos macaquito corre para uma caixa atulhada de peluches do Gang dos Frescos e abraça-os a todos, faz um discurso para cada um deles, alto, muito alto, tão alto que passados uns minutos havia um grupo de pessoas à volta dele a rir de tanto disparate. Continuo as compras naquele corredor e quando acabo lá o convenço a vir embora. Chegados à caixa, explica ao funcionário que adora todos e cada particularidade daqueles bonecos mas vem embora apenas com os pacotinhos de pontos que, eventualmente, lhe poderão dar acesso ao objectivo final.
Sem abrir, segura-os na mão e entrega à irmã assim que voltamos a casa para que seja ela a abrir e colar os pontinhos na caderneta. Vou para a cozinha preparar o almoço e a dada altura, ele grita-me surpreendido da sala:
-Mãeeee, o avô está aqui! - por momentos fico confusa.
-Qual avô? 
-O avô C. - encosto-me ao balcão meio atordoada, penso para mim o que raio estará o puto a ver. Macaquito tem qualquer coisa de extrassensorial que faço por ignorar, muitas vezes consegue ver coisas e adivinhar outras duma forma que nunca consegui entender mas que sempre associei ao facto de ter um cérebro diferente dos demais.
-Não estou a perceber nada, macaquito.
Corre da sala até à cozinha e mostra-me as cartas.
-Está aqui mãe, nas cartas, o avô está aqui nas cartas. - olho para as figuras e as lágrimas quase me saltam. Ele tem toda a razão, o chef do gang poderia muito bem ser o meu pai. O mais engraçado é que o meu pai era o cozinheiro da família e chamávamos-lhe "Chef Silva".

domingo, 23 de setembro de 2018

Merece crédito pelo engenho

Pai macaco resolveu fazer mousse de chocolate, desvalorizando o facto de ter dado cabo da batedeira da última vez que a usou. Claro que as peças continuam no armário aguardando melhores dias para substituição (começo a perceber aquelas pessoas que guardam todos os tarecos, nunca se sabe quando podem fazer a diferença!)
-Então e agora como faço?
-Bates a mousse à mão, antigamente não havia batedeiras. -digo-lhe eu já adivinhando que havia de sobrar para mim. Fui à cozinha, juntei a quantidade de leite necessária e fui mexendo até me doer o braço.
-Vá, agora acaba que já me dói o braço.
Depois de experimentados todos os dispositivos eléctricos disponíveis na cozinha, desde a varinha mágica ao pé de puré e nada satisfazer os seus intentos, dou com ele a fazer isto...



Digam lá que o meu companheiro não é uma pessoa cheia de ideias?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Luz

Nunca fui de desistir, quase dois anos volvidos recomeço tudo com a certeza de que nada será como era e sobretudo que será bem mais difícil prosseguir. Antecipo prazeres e sorrisos que podem nunca chegar, olho para o céu com outros olhos e parece-me ver mais estrelas. O que perdi, perdido foi, continuarei a escrever poemas de amor com o sorriso dos miúdos e continuarei a rir até doer a barriga com os disparates deles. Selo dois anos da minha vida, retirando apenas o que deles valeu a pena, as pessoas que me deram a mão e os degraus trepados a custo, abafo todas as perdas, amputo hipocrisias e esmago todos os desgostos.
Sigo mais uma vez em frente com a certeza de sermos ainda melhores porque se sobrevivemos a isto é porque somos do caraças. Fintámos a aflição com amor e abraços, somos mesmo do caraças!

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

À hora marcada

Depois de jantar.
-Macaquitos, vou beber café com a M., alguém quer vir?
-Eu vou mamã! - responde macaquito. -Tenho só de pôr o meu relógio. Posso levar o relógio?
-Claro, vai buscar para eu pôr.
Passado pouco tempo de estarmos no café, vem ao pé de mim. 
-Mãe, podes tirar-me o relógio?
-Posso mas porque é que o puseste?
-Para ter a certeza que chegávamos a horas!

Talvez importe referir que ele nem sabe ver horas nos relógios de ponteiros.

domingo, 12 de agosto de 2018

O trânsito no "homem" roubado

Disse-me 10 vezes ou mais, provavelmente foram muitas mais: "Tenho de ser entrevistado pela Inês Lopes Gonçalves!"
Obviamente... conseguiu!


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Quando crescer não quero ser

-Mãe, acho que já não quero ser carteiro.
-E já pensaste no que queres ser? Se bem que não tem pressa, tens muito tempo para decidir.
-Pois mas eu não quero ser carteiro, nem bombeiro, nem polícia, nem taxista... Acho que preciso da tua ajuda.
-E em que posso ajudar?
-Ajuda-me a decidir, preciso que me digas uma profissão que não dê muito trabalho, uma que não seja preciso fazer nada.



Estive para relembrá-lo disto mas resolvi deixá-lo decidir sozinho.


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Gaba-te cesta

Macaquito passa tardes inteiras nas traseiras de casa a andar de bicicleta, consigo vê-lo da janela e muitas vezes dou comigo a apreciá-lo e às suas tentativas de acrobacias desajeitadas. Vale pelo esforço, afinal faz tão pouco tempo que aprendeu a andar sem rodinhas. Encontrei uma vizinha e diz-me ela assim:
-No outro dia fartei-me de rir com o teu filho.
-Então?
-Fui à janela e ele andava ali atrás de bicicleta a falar sozinho...
-Pois, o costume.  - digo eu a rir.
-A dada altura ele vem muito depressa, chega ao fundo, dá um saltito com a bicicleta e diz muito alto. "Ai, ai que eu sou tãaaaoooo talentoso!"

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Nunca imaginei perder tudo ou quase tudo. Embarco em pensamentos surreais de como tudo voltará ao que era mas no fundo sei que nada voltará a ser igual, perdi a confiança nas pessoas, perdi dias de vida, dias felizes que eram quase todos, perdi o sono e a sanidade, perdi estabilidade, perdi o meu pai, perdi tranquilidade e o sorriso. Vou a meio da vida e ainda me surpreendo com a maldade e desonestidade das pessoas, deveria saber melhor... As tragédias podem ensinar-nos muita coisa mas já não tenho muito a aprender com a perda e longe de mim pensar que a infelicidade é um privilégio mas se nunca tive dúvidas com quem posso contar, neste momento tenho a certeza que tenho as pessoas certas ao meu lado.