quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Chato, chato, chato

A caminho de casa, a tentar levar a dele avante.
-Mamã, mamã quando estacionares na garagem posso marcar o código do carro.
-Claro que não macaquito, sabes bem que não.
-Mas mamã, eu sei o código, vá lá.
-Não podes, isso nem sequer faz sentido, o código é para ligar o carro.
-Ó mãe, é só uma vez, eu prometo.
-O carro não é um brinquedo, não insistas, não podes.
-Mamã, vá lá, eu prometo que não te vais arrepender, confia em mim. - usa este discurso sempre que vê que a coisa não está de feição.
-Não insistas, não vale a pena.
-Mas mamã...
Optei por não lhe responder mais, pensando que entretanto se calasse e esquecesse o assunto mas o rapaz é persistente e a ladainha continuava até que macaquita, que ainda não tinha dito uma palavra em todo o caminho, resolveu intervir.
-Pára macaquito, já tenho os ouvidos enjoados.
-Vão vomitar?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

90%

Sei que sabes que tenho um orgulho desmedido em tudo o que fazes mal. Quando deste os primeiros passos, tinhas quase três anos, que orgulho. Quando pedalaste um triciclo pela primeira vez, lembras-te? Tinhas quase 5 anos, chorei orgulhosamente a ver o vídeo que o avô mandou. Quando foste para a escola com um computador na mochila porque não conseguias pegar no lápis, senti tudo o que todas as mães sentem naquele primeiro dia e mais, senti orgulho desmesurado. E todos os anos, no final do ano sinto orgulho dos teus suficientes, sei o quanto te custa ganhá-los, atingir uma meta que para os outros tem metade dos quilómetros. 
Sei que sabes o orgulho que sinto em tudo o que fazes, não tenho é bem a certeza se sabes porquê mas eu vou dizer-te. Porque em todas as coisas que fazes mal, todas as pequenas coisas que atinges fazes com a coragem que às vezes me falta. Por isso hoje, quando me telefonaste da escola e me falaste cheio de orgulho no teu primeiro Muito Bom, eu não senti orgulho, senti justiça porque se há alguém que merece um Muito Bom és tu, na escola porque na vida serás sempre Excelente!!!

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Imaginem...

...que vão beber café a uma esplanada com uma amiga, acompanhadas dos vossos rebentos. Calha que essa esplanada é um local de passagem bastante movimentado, sentam-se de costas para a passagem e os rebentos brincam por ali. Imaginem que de repente olham para a vossa amiga e ela está a chorar a rir, assim como a vossa filha mais nova e a pouco e pouco todas as pessoas na esplanada e vocês não percebendo porquê resolvem procurar o motivo. O que vêem é um senhor de muita idade, vestido de gabardina e chapéu, com um andar muito peculiar, acompanhado de uma criança que lhe imita o andar sem sequer olhar para o senhor. Agora imaginem que essa criança é o vosso filho...
"Por favor, parem de rir que eu preciso de pôr um ar sério para poder ralhar com ele!"

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

De orelha a orelha

Chegaram, embrulhadas em sorrisos e cheias de alegria para dar. A surpresa na cara dela e a gargalhada genuína provam que ainda há quem goste de receber meias. Ainda por cima com super poderes...
-Uau mãe, poderes de gelo ou de outra coisa?. 
-Não sei que poderes têm, vais ter de descobrir sozinha mas eu desconfio que vêm cheinhas de amor.
-Quando eu já souber andar muito bem de bicicleta, vamos ter com a Loira e vamos passear na floresta com ela.
-Prometido!
Eu que tenho sempre tanto para dizer, fico sem palavras, obrigada Loira.

Conselheiro de moda que isso de fashion adviser é coisa de bloggers importantes

Hoje despi as calças de ganga e vesti um vestido, coisa muito, muito rara. Macaquito ficou em casa comigo porque está adoentado, a meio da manhã preparo-me para sair por uns minutos.
-Macaquito, ficas aqui um bocadinho que eu vou ali ao pão.
-Estás tão gira, mamã. Adoro o vestido mas esse casaco fica aí mal.
-Fica mal? 
-Fica, isso apertado tapa o efeito que a saia tem em ti.
Ainda estou para aqui a pensar que efeito possa ser esse.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A selva dos TPC

Uma folha A4 cheinha de contas de dividir, muito simples por sinal mas assim que vi a quantidade, vi a minha vida a andar para trás. Ele assim que olhou para a folha começou a chorar e a bater com os punhos na mesa.
-Eu não sei fazer isto.... são muitas...
-Não há problema, a chorar não consegues mas se parares com isso, eu ajudo e fazemos isto num instante. Nem te obrigo a fazer todas, podes fazer só metade assim que conseguires fazer uma conta sem ajuda.
Tenho sempre de arranjar uma estratégia para perceber se sabe fazer determinados cálculos, isto porque se não o fizer, ele finge que não sabe para ter mais ajuda do que a que realmente necessita. Ao fim de umas quantas consegui perceber que estava a entender, com mais uns "high five" lá fez uma sozinho e, como prometido, deixámos as restantes.
Como habitualmente, aproveitei a hora de deitar e naqueles minutos em que me deito na cama dele e que o encontro mais receptivo para conversar, preparei terreno para o dia seguinte.
-Hoje foste fantástico nas contas de dividir, se continuares assim, tenho a certeza que vais conseguir fazer tudo só com companhia e sem nenhuma ajuda. Amanhã vais fazer todinhas sozinho, eu sei que és capaz de me surpreender.
-Foi como nos problemas da página 65, até sabia quantos quadrados tinha a manta da Ana. - referia uns exercícios com umas quantas semanas. Falou-me de todos, lembrando-se de todos os valores e eu assentia e dizia que sim porque na verdade, os pormenores já se escaparam.
A dada altura pergunta-me a resposta de um dos problemas, visto que percebeu que eu estava ali a apanhar bonés e já não me lembrava daquilo, como não sabia, respondi com uma pergunta.
-E este problema? Vê lá se sabes, dou-te uma beijoca no nariz e canto a canção do Bonga se acertares (uma piadola tonta que só nós dois percebemos). Estavam 20 miúdos na selva, veio um leão e comeu 2, quantos meninos ficaram?
-Imensos!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Uma questão de método

Não havendo trabalhos de casa, disse-lhe que tínhamos de estudar um pouco as tabuadas que é o que ele mais detesta e por isso não se esforça minimamente em sabê-las. Quando estamos a fazer problemas matemáticos, deparamo-nos amiúde com essa lacuna e as coisas correm muito mal. O  problema é que nem todo o poderio bélico do mundo o demoveria quando ele mete na cabeça que não faz. Por tudo isso e porque ele insistia, com alguma razão, que se não tinha trabalhos é porque a professora lhe deu folga, resolvi ir buscar o quadro branco para a sala e comecei a escrever 4X1=, sem sequer olhar para ele.
Ele pega numa caneta de outra cor e escreve 4 e eu insisto no 4X2= , ele escreve 8 e diz-me que dali para a frente quem põe o sinal de igual é ele. Faço uma festa tão grande que ele até olha para mim espantado, continuamos a brincadeira e pelo meio vamos desenhando bonecos tolos que ganham olhos, nariz, barba e cabelo à medida de cada resultado correcto. Depressa passamos para a tabuada do 5 sem uma única reclamação e com todos os resultados certos e depois a do 6, 7, 8 e 9. Mais uma vez concluo, parafraseando o Scolari , que o burro sou eu porque ele sabe aquilo de cor e salteado e quando me grita o resultado final de um problema, sem me conseguir explicar qual o raciocínio que fez, não é por acaso, é apenas estar uns quantos passos à minha frente.
Ninguém me tira que se o avaliassem no quadro branco ou oralmente, os resultados iriam muito além do suficiente.