terça-feira, 14 de junho de 2016

Ama-seca

Férias significam saudade para mim, os avós contam ansiosamente os dias, eu também. Divergimos de razões, convergimos na dimensão do amor. O meu coração ressente-se, bate descompassado, outras vezes acelerado, sinto um nó no estômago, outro na garganta, no fundo tenho uma corda enrolada a mim, que nem cobra que se prepara para esmagar a presa, é isso, sinto-me esmagada, estraçalhada de saudades, nem a voz dele me sossega a angústia, apenas saber que está feliz.
Agora é doutor, desses doutores médicos e responsável, diz ele, pelo avô. 
Noutro dia, a avó tendo de sair, como avô descansava ficou renitente em deixá-lo em casa, mas ele não queria ir, prometeu que tomava conta da casa e do avô. Quando voltou, diz-lhe o avô que à hora do lanche, macaquito assumindo a sua função de cuidador, médico, enfermeiro, responsável e sei lá que mais, lhe diz assim:
-Avô, diz-me o que queres para o lanche que eu vou preparar.
Rimo-nos todos ao telefone, que ele nem consegue ir buscar um copo de água sozinho. Se o deixassem, ele teria deixado a cozinha num caos mas o avô não passava fome.
Playstation de 1980 (legenda descaradamente roubada a um amigo)

quinta-feira, 9 de junho de 2016

prima ballerina


Foi prima sim, se bem que apenas nas lágrimas, nos soluços e nos abraços. Chorou assim que me viu, correu para mim à primeira distracção da professora, correu para mim entre apresentações, presenteou-me de beijos, abraços e lágrimas a cada oportunidade. Cada vez que voltava ao seu lugar, fazia o que lhe competia sem nunca tirar os olhos de mim, dançou, lançou-me beijos e súplicas com o olhar, cantou, recebeu o seu diploma e à sua primeira distracção abandonei-a às suas lágrimas.

terça-feira, 7 de junho de 2016

50 tons de pele

A minha filha é preconceituosa, para não lhe chamar outra coisa. Ontem disse-me que o D. tem uns olhos bonitos mas que não gosta dele porque "ele é castanho". Fiquei atónita, nunca me passou pela cabeça que ela pudesse dizer uma coisa destas. A minha reacção inicial foi de condescendência, obviamente tentei compreender o porquê daquelas palavras e explicar-lhe que as pessoas são todas iguais apesar da cor da pele, dos cabelos ou dos olhos. Ela teimou, voltando sempre à afirmação inicial. Quando há uns tempos, enquanto pintava me pediu o lápis "cor de pele", eu
dei-lhe vários lápis, vermelho, castanho, amarelo, rosa-claro, ficou a olhar para mim, então disse-lhe que essa cor  não existia, que há vários tons de pele e pensei em levar a discussão à sala de aula pois em casa não usamos o termo.
Será normal na idade dela? Sempre supus que o exemplo parental e/ou contexto familiar falasse mais alto, terá o contexto escolar um peso tão grande na definição do carácter nesta idade? Ou estou a pôr demasiado peso e isto não será efectivamente um problema?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

E o palerma sou eu?

Após uma intensa tarde de estudo para uma prova de aferição que não conta para nada, a não ser para cumprir calendário, responsabilizar crianças do segundo ano não sei bem em quê e suprir necessidades de cumprir objectivos de alguns iluminados, já na cama macaquito diz-me isto:
-Mamã, eu vou ter de estudar mais vinte anos ou pode ser só até ao 12º?
E eu arrependi-me de não o ter deixado ir passear com o pai e a irmã e me ter zangado com ele na pausa de uma hora que lhe dei por ter extravasado toda a energia das formas mais palermas que lhe passaram na cabeça. 

domingo, 5 de junho de 2016

Meter o bedelho

Dia agitado, acordaram cedo, demasiado cedo para sábado mas tarde para eles que tinham a prima em casa e imensas coisas para pôr em dia. Consequência do madrugar, enquanto jantávamos macaquita tinha dores, dores de barriga, de cabeça, de olhos, de garganta, de tudo. A cabeça em cima da mesa, o cabelo no prato, a comida que teimava em permanecer irremediavelmente fria no prato.
-Come, macaquita, se não queres vais dormir.
-Não quero dormir, dói-me a barriga. 
-Deixa-te de tretas, se não queres comer vais dormir. Se queres ir ao ensaio connosco, tens de comer.
Macaquito resolve intervir.
-Estás ouvir, tens de comer senão...
-Macaquito, pára de meter o bedelho. Estou a falar com a mana, não é contigo.
-Ei, eu não sou fedelho.
-Bedelho, eu disse bedelho.
-Bedelho?? Vou escrever no tablet (que é como quem diz, vou googlar).
-Não precisas de pesquisar, não metas o bedelho é o mesmo que dizer para não meteres o nariz onde não és chamado. 
-Se eu quiser escrever no tablet, posso escrever e ver as imagens. Não metas o bedelho nas minhas coisas, ok?!
Fico com a ideia de que percebeu o significado, mesmo sem ver as imagens.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O caminho

Ninguém sabe o que lhe vai na cabeça, ainda que fale connosco incessantemente. Eu que lhe conheço as manhas e entranhas e todos os passos que dá, vou entendendo o discurso aparentemente desconexo, na impossibilidade de o entender pergunto-lhe descontraidamente onde foi que viu tal coisa, amiúde a resposta é "nos meus sonhos". 
Permito-lhe que sonhe, se bem que o tenho de acordar demasiadas vezes, arbitram-me que o traga para a realidade, fico-me a pensar o que ganha com isso, se nos leva a algum lado. Se viver num sonho o levar a um fim qualquer, podemos sempre recomeçar. Não o vou condenar a viver uma realidade que é de todos mas talvez não seja o lugar onde se encaixe. 
Se é a minha mão que escolhe para caminhar, vou permitir que escolha também o caminho e no fim sei que estaremos bem, se não estivermos, podemos sempre começar de novo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dia da criança e o amor do costume

Tudo a preparar mil presentes para o dia da criança? Aqui em casa distribuiram-se beijos e abraços logo pela manhã, prepararam-se almoços e lanches para levarem para as actividades da escola e quando chegarmos a casa, depois da azáfama do costume, vou deixá-los ir para a cama dez minutos mais tarde que o habitual, tempo que vou usar para lhes mostrar que o melhor de ser criança é ter alguém que gosta muito deles, todos os dias. E que os deixa comer umas gomas de vez em quando!