sábado, 14 de maio de 2016

Na farmácia

Macaquito raramente se engana com palavras mesmo quando lhes troca o significado, ele corrige crianças e adultos sem pudor. Raramente deixa impune uma má pronúncia da irmã ou um plural mal formulado. Por isso, hoje, quando se saiu com esta não consegui conter o riso.
-Macaquita, anda vamos àquela máquina para nos pesarmos. E depois pedimos à senhora do balcão para medir a intenção arterial.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Gestão de ausência

-Como o papá hoje não está, podemos dormir na tua cama?
-Como hoje se portaram particularmente bem, podem. 
Ela adormeceu no sofá muito antes da hora de dormir, fruto talvez das duas vacinas que aguentou estoicamente e que lhe fizeram doer os braços todo o dia, o que não invalidou que eu cumprisse a promessa e a deitasse na minha cama. Deitei-o um pouco depois no lugar do pai e reparei que não parava de esfregar os olhos.
-Tens comichão? Não podes esfregar assim os olhos.
-É uma lágrima de saudade do pai.
-O pai amanhã já cá está. 
-Ao almoço?
-Não, só à noite mas ainda vos vê acordados. Vá, dorme.
-Não consigo dormir.
-Consegues, se fechares os olhos.
-Mas se eu fechar os olhos não posso olhar para ti.
-Mas se fechares e adormeceres, podes sonhar comigo.
Dois minutos e um suspiro, adormeceu a sorrir.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Preciso de tempo e de dormir

Chegáramos a casa havia 10 minutos, tinha banhos para dar e o jantar para acabar, macaquito não tinha terminado os trabalhos de casa na academia, logo, fazer 5 tabuadas ia tomar-me no mínimo meia-hora, caso estivesse bem-disposto. Enquanto me descalçava fazia as contas ao tempo, ouço a campainha, tive um secreto anseio que pai macaco se tivesse esquecido das chaves porque a esta hora campainha significa sempre o mesmo, comerciais de empresas de telecomunicações. Bingo
Sem problema, penso, despacho-o em trinta segundos mas Macaquito abrira a porta e já falava que nem uma grafonola quando cheguei.
-Macaquito, vai para dentro, prepara as coisas para terminarmos os trabalhos.
-Espera mãe, tenho de falar com o senhor. - entre gestos  e sussurros tentei dizer  que se lhe desse atenção ele nunca mais se calava, o atencioso rapaz respondeu-me que não fazia mal, que tinha tempo. Tempo, exactamente o que eu não tinha.
-Vês mãe, posso falar! Então porque está aqui? Quantas portas já foi? Já foi aos outros prédios? E nesta porta já bateu? Mostre-me o seu cartão! Já tem muitos clientes? A minha mãe já é cliente mas da Vodacoiso. Também tem telemóvel e o meu pai também... A minha mãe não é senhora, é FULANA DE TAL  e Tal e tal ( não é senhora???? Aqui, confesso que fiquei indignada). O número dela é ... e do meu pai e da minha avó... no telefone da minha mãe "casa pais" está num quadrado vermelho e o do pai é verde e ...e ...e....e ....
Este miúdo recorda-me Funes, o memorioso, recorda mil coisas mas parece que não sabe pensar.
Omito aqui as respostas, por motivos óbvios de falta de tempo,  Só que no meio disto tudo eu tentava entrecortar aquele discurso com uns desculpenão preciso de outro serviço, não tenho muita disponibilidade e o comercial ia tirando uns nabos da púcara, macaquito não dava tréguas e tive de o mandar embora para a sala. Agarrou-se o moço àquela pausa e com mestria disse-me que agora tinha de lhe dispensar 5 minutos e eu dispensei, acho que foram 15, venceu-me pelo cansaço que eu já estava por tudo. Aparece-me entretanto macaquita com a sua pequenina cadeira empalhada e senta-se à porta qual moderadora de debate. Nunca me tinha deixado enganar por um comercial, normalmente faço-o sozinha e em plena consciência mas por linha telefónica. Dei-lhe o meu número de telefone, provavelmente mudarei de operador mas ontem juntámos o jantar com a hora de dormir e só houve tempo para uma história.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Modas

Estão a ver as calças da moda? Aquelas com um rasgão no joelho que se vendem já assim? Pois esta manhã, ao baixar-me para tirar uma peça de roupa na última gaveta da cómoda de macaquito, ganhei umas calças assim. Tudo bem, já não vou trocar isto, mal se vê. 
De tarde, desloquei-me com macaquito a uma consulta de fisiatria e enquanto aguardávamos que o chamassem, conversávamos e fazíamos uns jogos, até que ele sai do meu colo e repara que tenho as calças rotas  da moda.
-Mãe, olha as tuas calças, como fizeste isso?
-Foi em casa, não faz mal, a mãe logo troca.
-Tens de pôr cola.
-Ok, eu logo trato disso.
Lá foi à vida dele, achei eu que tinha ido brincar, até ouvir alguém perguntar, "então onde está a mãe?". Aparece-me uma terapeuta com um rolo de fita adesiva e eu a explicar que não era preciso e a senhora a achar que eu tinha ficado meio nua e o meu filho a dizer, "sim, sim que não podes andar por aí rota" e todas as pessoas na sala de espera a escrutinar-me de cima abaixo para ver onde estava o buraco e eu à procura de um buraco para me enfiar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ao provedor da blogosfera - presentes sem talão de troca


Macaquito ofereceu-me um vestido bonito que quase me serve. O lencito, visto estarmos na época das alergias pode dar jeito. Estou verdadeiramente surpreendida com a escolha de cores e padrão e embevecida com as palavras bonitas que me deixou no avesso.

Da mais nova recebi este espelho com uma mensagem bonita (e verídica). Muito funcional e excelente para o ego. Antes de abrir a tampa, pergunto:
"Espelho meu, espelho meu, há alguma mamã mais bela do que eu?"
Abro a tampa e Tcharaaaammmmmm!













domingo, 1 de maio de 2016

Dia de nós

Olho para mim quando era pequena e acho que fui feliz, às vezes nem tenho bem certeza porque tenho memórias que não defino, não lhes encontro albergue. A minha mãe ensinou-me como ser a mãe que sou hoje, ela que não foi nem de perto, nem de longe a melhor mãe do mundo. Ditou-me o caminho de tudo o que não sou. Estas palavras dedico-lhas com carinho porque nos amou incondicionalmente mas não sabia ser diferente, com ela era sempre não, não fazes, não podes, não vais, não deixo, hoje percebo que era por medo, por não saber fazer melhor, por ter medo de nos perder, nem sei bem porquê.
Faço do dia da mãe, o dia do pai que o meu, foi pai e mãe. Ficou-me a lição, sou mãe e pai mais vezes do que desejava. À minha mãe digo-lhe que no papel de avó é simplesmente maravilhosa e isso enche-me de orgulho. Ao meu pai, não lhe perdoo o susto que nos pregou e que fez deste dia de nós um dia um bocadinho mais triste. Aos meus filhos não lhes digo aqui nada, sussurro-lhes ao ouvido a cada adormecer o quanto os amo e eles retribuem com sorrisos e um "eu também". De hoje fica-me a frase de macaquito "eu quero que o avô melhore!" assim, com ponto de exclamação, eu também! Hoje foi dia de nós porque é nesta família que sou mais mãe e sou mais filha e somos todos uns dos outros.