quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Ordens são para cumprir

A terapeuta ocupacional tirou a sessão para uma reavaliação, reavaliação essa que exige a apreciação de vários parâmetros,  cognitivos e motores. Eu estava fora da sala, visto que ele trabalha melhor sem a minha presença quando tem de estar mais concentrado. A dada altura, a terapeuta pedia-lhe que imitasse situações do dia-a-dia para avaliar a praxia ou planeamento motor. Consiste na habilidade de imaginar e conseguir reproduzir situações sem ter objectos que o assistam na tarefa. No caso dele é complicado, é ainda bastante imaturo devido à dificuldade na integração sensorial. Assim, começou por pedir-lhe que lavasse os dentes, que se penteasse, calçasse os sapatos, fizesse uma chamada com o telemóvel, isto tudo reitero, sem qualquer objecto nas mãos. Fui ouvindo tudo o que se passava e conseguia perceber pelas reacções da terapeuta como se estava a sair.
-Agora penteia-te. Muito bem! Agora estás a lavar os dentes. Ok! Agora faz de conta que estás a cortar o pão com uma faca.
-Aaaaahhhhh não! Não e não! Isso não! A minha mãe não me deixa mexer em facas!




Pontos de vista

Chegámos à terapia e, para gáudio de macaquito, não havia sítio para estacionar. Assim tivemos de subir ao parque de cima que fica muito mais longe mas que dá para fazermos corridas até cá abaixo. Azar dos azares também não havia lugar e tive de dar a volta num local um bocado estreito, enquanto fazia a manobra reparo que umas senhoras saíam e aguardei para ver se arranjava lugar, elas ficaram um pouco à conversa.
-Estás à espera de quê?
-Estou a ver se aquelas senhoras têm carro e se arranjo lugar para o nosso.
-Apita, mãe!
-Não posso apitar, sabes bem que não posso.
-Claro que podes apitar, é uma situação de perigo.
-Perigo? Então explica lá onde está o perigo.
-Perigo para as senhoras, se não saírem dali depressa!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Manel, o eremita

Férias significam, para alguns, não ter horários, nomeadamente, não ter horários para acordar. Com dois macaquitos em casa, isso torna-se missão quase impossível. Macaquita ainda dá umas tréguas, já macaquito tem fome, tem sempre fome, não lhe consigo matar a lombriga que lhe consome os quilos de comida que enfarda por dia, por isso, no máximo por essas 8 horas da matina oiço a sua voz:
-Mamã, vais arranjar-me papinha? Estou cheeeeiiiiiiiooooo de fome!
Sempre do meu lado da cama, entra, finge que dorme durante 5 segundos, dá-me umas quantas patadas, uns beijinhos, mexe e remexe no meu cabelo e lá arranja coragem para angariar comida com a frase sempre precedida da palavra mãe.
Uma dessas manhãs de férias e já de barriga cheia, depois da rotina que impunha a si próprio de abrir todas as portadas e a porta para a rua, macaquito vai até  à piscina e volta agitado.
-Mamã,  está ali um caranguejo eremita.
-Onde?
-Ali, ao pé da piscina. Anda ver.
Entretanto, macaquita já acordara e lá fomos todos investigar o caranguejo.
-Podemos pô-lo na piscina? - pergunta ele.
-Claro que não. É de água salgada, se puseres na piscina acaba por morrer.
-Então o que fazemos? Podemos ficar com ele? - pergunta macaquita.
-Eu acho que é melhor guardá-lo ali no balde e depois deixá-lo na praia. Assim ele pode voltar para casa.
Como tínhamos decidido ir passear (e procurar a gelataria dos gelados sem lactose) a Vila Nova de Mil Fontes ficou decidido que o caranguejo "eremita", que não era Pylopagurus mas um qualquer caranguejo comum, se chamaria Manel e ficaria ao largo da ilha do Pessegueiro que nos ficava em caminho.
Lá fomos nós, parámos ali juntinho à praia, mãe e rebentos desceram as rochas que me valeram um furo num dedo do pé graças às vertigens de macaquito e ao escândalo que fez para descer sozinho de um metro de altura. Calcorreámos a areia de baldinho na mão, sob o olhar incrédulo de pai macaco que acha que eu sou mais tonta que os dois putos juntos, molhamos os pés na ondas e soltámos o Manel em direcção ao horizonte.
Fizemos o nosso passeio, tirámos fotografias junto ao rio que cruza ali mesmo com o mar, comemos gelado de manga sem lactose que "foi o melhor gelado que comi em toda a vida" e voltámos a Porto Côvo.
Quase a chegarmos, macaquito pergunta:
-Mamã, achas que o Manel já chegou a casa?
-Sim, claro. Já deve ter chegado.
-Esta noite já vai jantar com a sua família!
E ficaram felizes porque salvámos a vida ao Manel e o Manel era só um caranguejo...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Ceia??

Obrigatório nas férias é passar no "Café do Zangado" (é assim que macaquito lhe chama, até hoje não percebemos porquê) e comer uns belos caracóis. Confesso que vou sempre na expectativa de que me reconheçam depois da história da "Xebeja" mas é ali que os caracóis são de comer e chorar por mais. 
Aproveitámos um dia em que o vento não nos deixou gozar praia. Conversámos imenso, demos umas gargalhadas em família e a dada altura macaquito perguntou:
-Mamã, isto é jantar?
-Não, claro que não. Então se ainda é de tarde, é lanche.
-Então e quando bebemos o leite à noite, chama-se quê? Reabastecer??!

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Quem muito fala...

Macaquito fala, fala muito, que é como dizer, não se cala um minuto, fala sozinho enquanto brinca, fala ininterruptamente durante qualquer viagem de carro, fala durante as refeições, até a dormir fala. Os silêncios dele são apenas quando entra no mundo dele, se estiver distraído com alguma coisa  ou na presença de muitas crianças pois prefere isolar-se a ter grande interacção social mas esses momentos são sempre breves.
Enquanto brincava na piscina, debitava todos os seus pensamentos e perguntava tudo o que achava que tinha de ser perguntado.
-Mãe, vais ler esse livro todo? Faltam quantas páginas? 300??? Isso são muitas páginas! Vou dar um mergulho. A água está boa. Onde é que eu estava? Neste quadrado? Agora vou saltar deste.
Mergulha e assim que põe a cabeça fora de água, continua.
-Senhor, a sua filha não vai à piscina? Ela está com frio. Quantos anos tem? A minha mana tem cinco. Já sabe nadar. Eu também sei nadar mas tenho de usar o colete porque a minha mãe quer. 
-Macaquito, sossega, não sejas aborrecido.
-Mas mãe, eu tenho de dizer. Vais ler o livro todo? Porque é que gostas de ler? Agora vou mergulhar deste quadrado. Viste mãe, foi um mergulho espectacular. Vamos jogar um jogo?
-Sim, está bem. Que jogo queres jogar?
-Não sei, mamã, escolhe tu.
-Vamos jogar o jogo do silêncio, o primeiro a falar perde.- disse-lhe antecipando a reacção, o casal que se encontrava na piscina, olhou-me e sorriu. Colocou as duas mãos na boca, torcia-se e retorcia-se, apertava os lábios com força, sem nunca parar de rir, um riso nervoso. Ao fim de cerca de 30 segundos, tirou as mãos da boca.
-Desculpa mãe mas não consigo jogar esse jogo!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

De volta


Após alguns dias de descanso, praia e muita brincadeira longe de casa, das internetes e afins, estamos de volta. Temos histórias novas para contar...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

As pedras

Sentada na toalha Macaquita encontra uma pedra preta, faz força e parte-a ao meio.
-Mamã, está pedra não tem água.
-Claro que não, as pedras não têm água.
-Ai não? Então como é que os senhores fazem Água das Pedras, daah.