sexta-feira, 26 de junho de 2015

O gato e as tradições

A caminho da escola de macaquita vimos uma carrinha com publicidade a desinfestações.
-Mamã, aquele carro tinha um ratinho, é do quê?
-É o carro dos homens que matam bichos malandros que vão viver para casa das pessoas sem autorização.
-Mas matam os ratinhos?
-Às vezes tem de ser.
-Mas os ratinhos são tão fofinhos.
-Pois são, só que os ratinhos têm muitos filhotes ratitos que depois crescem e comem tudo, as roupas, os brinquedos, a comida...-
-Eu acho mal, não se deve fazer mal aos animais, os ratinhos só fazem buracos no queijo. Eu vou levá-los para a nossa casa e partilho os meus brinquedos e vou dar-lhes o queijo da vaca que ri.
Alguma coisa devo estar a fazer bem!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Um não são dois

Não me apetece escrever, não me desculpo com o calor, a minha razão é falta de filho. Macaquito continua nos avós, os dias correm devagar e o coração está apertado. Sei que está feliz, devia estar feliz também mas parece que me arrancaram uma perna, ou um braço, sei lá, falta-me qualquer coisa. 
Corro para ele ao fim-de-semana, os mil abraços que lhe dou não chegam para uma semana. Desta vez fizemos um piquenique, deitou-se na manta, chamou-me e pediu que me deitasse junto a ele, tinha guardado metade da almofada vermelha para mim. Estávamos de cabeça para baixo pois a relva tinha um plano inclinado, era assim que ele queria "É melhor para ver a forma das árvores." assim ficámos, rimo-nos e trocámos abraços, beijos à esquimó e festas no cabelo.
Calor sufocante, misturado com a ansiedade de quem tinha de ir embora primeiro e deixá-lo de novo. "Mas amanhã é domingo!" dizia-me desolado "Eu sei bebé da mãe mas tem de ser, é a ginástica da mana, é a última coisa, prometo!"
Ao final do dia, dei-lhe um beijo, no meio de uma chuva de mangueiradas e copos de água trocados entre adultos e crianças, as gotas que me caíram no rosto disfarçaram as lágrimas de quem se despedia sem lhe dizer que era um beijo de despedida. Peguei macaquita pela mão e vim embora cheia das saudades que não abrandam. Nestes dias que não o tenho, também não tenho de esperar para me deitar para lhe dar medicamentos, não tenho de dividir os tachos para fazer a sua comida especial, não tenho de me levantar tão cedo como de costume, nem de correr entre escolas e terapias mas também não tenho histórias para contar, não solto gargalhadas a cada cinco minutos e nem sequer me apetece escrever.
E a mais pequena assim sozinha, não me larga as pernas, tenho o dobro dos abraços, o dobro dos beijos, o dobro das birras e eu cá vou, sentindo-me mãe pela metade.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Nunca mais aprendo

As férias estão aí, assim que chegámos ao último dia de escola, rumámos a casa dos avós, onde macaquito perguntou ansiosamente se poderia ficar dezoito dias, não fosse o dezoito o seu número de eleição. Disse-lhe que poderia ficar o tempo que quisesse, não obstante morrer de saudades dele e os os 30 quilómetros que nos separam, por vezes serem demasiado longe para que o possa beijar todos os dias. 
Esta tarde liguei-lhe e entre mil histórias e perguntas, disse-me que a avó o tinha mandado esconder o lápis, ouvi os protestos da avó por trás e percebi que era uma desculpa para não estudar.
-Sabes macaquito? Tens de estudar um bocadinho todos os dias.
-Mas mamã, eu já sei tudo.
-Ninguém sabe tudo, a mana ontem quando chegou fartou-se de fazer trabalhos e nem sequer anda na escola, apenas gosta de aprender.
-Vês mãe, ela também se fartou

segunda-feira, 15 de junho de 2015

2+2

Quando ergui as paredes da minha vida, fi-lo ansiosamente, mal podia esperar para chegar ao telhado. Juntei naquelas quatro paredes todos os sonhos de criança com os adulta resoluta que sempre fui, tinha pressa de os tapar não fosse o sol ou a chuva estragá-los de uma assentada.
Faltava o chão, tinha de ter chão debaixo dos pés pois nem sempre os pés se querem assentes na terra. "Vamos pô-lo bonito e brilhante e fácil de lavar, sabes como sou desastrada e as manchas querem-se efémeras."
Depressa percebi que a vida se constrói devagar, os alicerces obrigam-se sólidos,  sob o risco de rupturas. Tenho comigo que os bibelots ficam na montra da loja, não almejo brilhos fora os que encontramos quando os nossos olhos se cruzam.
Faltava qualquer coisa, falta sempre qualquer coisa. Posto isto, preenchemos lacunas com mais vida, dessa vida que nos deixa entre o choro e o riso em segundos, a vida que nos faz felizes, a mesma vida que nos faz zangar e pôr em causa se é nesta casa que queremos morar.
Já nos desmoronámos, já nos reconstruímos, os sonhos, esses são os mesmos nos dias sim e são outros nos dias não. Olho para trás e vejo o depois, depois disso só nos vejo a nós e os quatro braços que nos enlaçam. Trazes mais um tijolo?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Vamos dormir?

Hora de dormir, macaquita luta com todas as forças contra o sono que a assola, faz piruetas, conta histórias, faz todas as perguntas que tinha guardadas na gaveta e que dariam certamente para um ano. Usualmente, o irmão já dorme a sono solto e ela ainda ainda está a tentar arranjar uma boa razão para ficar no sofá. 
Metade da minha vida, metade é talvez um exagero mas um quarto da minha vida é passado a arranjar estratagemas para a levar para a cama sem me zangar. 
Finalmente, achei a solução: O Sr. Coelho fala! Mas só fala na cama e depois de ela carregar no medalhão mágico.
Obrigada Disney, muito obrigada!


terça-feira, 9 de junho de 2015

Ser normal...

Às vezes não entendo o meu filho, não lhe percebo as birras, indago todos os sons, toques, cheiros e tento entender o que provocou certo estado, penso qual foi a rotina que mudou e mesmo assim não chego lá, nem sempre consigo entendê-lo. Sei que não são birras, sei que são interferências ao bem estar dele, nem sei o que lhes hei-de chamar. 
O meu filho não sofre apenas de desordem do autismo, essa foi a última das maleitas que o atingiu, ou melhor, a maldita já lá estava mas foi a última a ter um diagnóstico.

 "di.ag.nós.ti.co
subst. m.
1. acto de reconhecer uma doença: fazer um diagnóstico
"
(francês diagnostic)

"diagnóstico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/diagn%C3%B3stico [consultado em 09-06-2015].
ddi·ag·nós·ti·co
(francês diagnostic)

substantivo masculino

1. Classificação de doença pelos seus sintomas.

2. Conjunto desses sintomas.

adjectivo

3. Relativo à diagnose.

"diagnóstico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/diagn%C3%B3stico [consultado em 09-06-2015].
di·ag·nós·ti·co
(francês diagnostic)

substantivo masculino

1. Classificação de doença pelos seus sintomas.

2. Conjunto desses sintomas.

adjectivo

3. Relativo à diagnose.

"diagnóstico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/diagn%C3%B3stico [consultado em 09-06-2015].
di·ag·nós·ti·co
(francês diagnostic)

"diagnóstico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/diagn%C3%B3stico [consultado em 09-06-2015].

2. nome feio que os médicos escrevem num papel.
No caso dele, fui eu que insisti, não me assustam os nomes das doenças, assusta-me a ignorância e por conseguinte não saber lidar com o abstracto. Mas como disse lá atrás, ele não é apenas autista, ele tem uma doença rara com um nome estranho, mais um nome feio que o tornou num ser hipersensível ao som e ao toque, as gotas azuis que lhe imponho, impedem que tenha ataques que lhe toldam os movimentos e lhe páram a respiração mas a hipersensibilidade está lá e junto com o autismo, são uma espécie de cocktail explosivo que lhe provoca reacções inesperadas devido a coisas que só ele ouve ou sente.
Por tudo isto, às vezes não lhe entendo as birras e os outros também não!
Por tudo isto, às vezes nem tento explicar porque é que ele está a chorar com as mãos nos ouvidos, está assim apenas porque sim.
Por tudo isto, recebo olhares que trespassam, olhares de outros pais nos baloiços ou no restaurante e mando-os para aquela conta em pensamento.
Por tudo isto, insisto em que participe em todas as actividades que as outras crianças fazem e sei que vão haver sempre aquelas pessoas que olham de lado porque ele não é capaz ou não entende!
Por tudo isto, às vezes apetece-me dizer foda-se, às vezes digo.
Nunca fui uma mãe normal, tenho-o assim desde o dia que nasceu, portanto, não sei o que é ser uma mãe normal, fui sempre uma mãe preocupada com di.ag.nós.ti.cos, con.sul.tas e te.ra.pi.as.
Rio-me das mães que choram muito porque "o menino está ranhosinho", as mães normais, as que lançam olhares assassinos às birras do meu filho. A mim nunca me foi dada essa oportunidade, de ser uma mãe normal. E por isso finjo que choro quando a minha filha está ranhosinha. 
Às vezes não entendo o meu filho, às vezes pergunto porque não sou uma mãe normal, às vezes digo foda-se!