sexta-feira, 27 de março de 2015

Há quem escreva livros...

Macaquito continua nos avós, liguei há pouco para o ouvir. A avó atende e diz-me para esperar e percebo que acelera o passo com o telefone na mão.
"Mamã, mamã, cheira-te aí mal?"
"Não, porquê?"
"Vim aqui à sanita dar um pum!!"
Excesso de informação, como é que explico à avó que podia ter dito para ligar mais tarde?

Perguntas difíceis

As nossas viagens são o mote para conversas muito enriquecedoras. Eu conduzia distraída com o foco no programa de rádio, até que as minhas orelhas se espetaram com isto:
"Macaquita, tu és gay?"
"Não sei.  Ó mãe, o mano está a dizer asneiras."
"Onde ouviste isso macaquito?"
"Foi o Gustavo que disse."
"E tu sabes o que quer dizer?"
"Não mas o Gustavo disse."
"Ok, então vamos fazer assim, eu explico-vos o que quer dizer mas tu não andas por aí a perguntar às pessoas."
"É uma asneira?"
"Não é uma asneira. Uma pessoa gay é uma pessoa que gosta de alguém do mesmo sexo, ou seja, mulheres que gostam de outras mulheres e homens que gostam de outros homens." Eu sei que é uma visão um bocado simplista mas como se explica isto a crianças tão pequenas?
"Aaaaaahh, já percebi." diz macaquito, macaquita continua em silêncio.
A viagem continua e passados uns bons 10 minutos macaquito chega-se a mim.
"Mamã, eu sou gay?"
"Eu acho que não filho, na verdade, não sei mas se fores não há problema nenhum!!"
Acho que a versão demasiado simplista de pessoas gostarem de pessoas do mesmo sexo o confundiu, ando em estudos, esta conversa vai ter de ter continuação.

terça-feira, 24 de março de 2015

Férias

Tenho a casa vazia, cheia de coisas mas vazia de choros, risos e gargalhadas. As camas estão sempre feitas e alguns brinquedos ainda jazem na sala porque gosto da imperfeição do desarrumo. Adoro o silêncio que habitualmente só tenho na hora de almoço e que agora se prolonga até ao deitar.
Tive, por força das maleitas de macaquito, de me converter numa mãe não galinha,  cortei o cortão umbilical no parto e daí para a frente custou muito menos deixá-lo ausentar. Às vezes choro quando ele não está mas não digo a ninguém porque todos dependem de mim. 
Foram de férias para os avós e agora tenho a casa vazia e em silêncio e sabe-me muito bem. Sei que macaquito adora estar lá mas já sinto saudades dos abraços dele e das coisas fofas que me diz espontaneamente. Já macaquita detesta separar-se de mim, nunca vai totalmente feliz, no entanto, do que não sinto falta nenhuma é dos arrufos dela, das birras por causa de botões na roupa ou dos sapatos carneirinha.
Quando falamos ao telefone, macaquito esperneia porque tem de voltar apenas um dia para ir à terapia, macaquita faz-me ter conversas intermináveis a tentar convencê-la a ficar mais um dia.
Hoje foi assim:
"Bom dia mamã, dormi bem, já tomei o pequeno-almoço e estou a divertir-me imenso. A mana não vai falar, está a dormir no sofá."
"A dormir? Agora? Chama o avô." estranhei mas era ele a brincar.
"Macaquita, a mãe quer falar contigo." ouvi soluços e a voz mais infeliz do mundo.
"Mamã, podes vir buscar-me?"
Quando sair vou buscá-la!

segunda-feira, 23 de março de 2015

Papa reformas

Odeio papa reformas e não estou a falar daqueles gajos do governo que nos levam tudo e mais umas botas, quer dizer, também odeio esses mas falo daqueles veículos também apelidados de mata velhos.  Eu nem sou pessoa de odiar muita coisa mas mexe-me com os nervos ter de andar a 20 kms hora quando tenho apenas dois minutos para chegar ao trabalho e que não cumpram as regras de trânsito, que não parem nos stops, que quase atropelem as pessoas nas passadeiras e depois parem dez metros à frente por causa de um pombo.
Numa bela manhã de quase primavera, o sol irradiava entre dois prédios o que me impedia de ver um boi à frente, paro numa rotunda, olho para os dois lados (não fosse alguém circular em sentido contrário, isto com os mata velhos na estrada nunca se sabe) e arranco decidida. Ora nem dois segundos e PAM! Ai mãe, o que foi isto? Macaquito estás bem? Travão de mão, saio do carro e que vejo eu? Um papa reformas, quase desmontado no chão, as transmissões jaziam torcidas ao lado da chapa brilhante de viatura nova. Olho de novo, alertada pelos gritos da senhora que saia de dentro do carro e percebo que se encontra bem, estava só um pouco histérica. 
O que faço? Tenho um ataque de riso, daqueles de não conseguir falar, tenho a desculpa das hormonas pois estava grávida de macaquita e as hormonas da gravidez deixam as pessoas um bocadinho doidas. Tento falar com a senhora, dizer-lhe que tenho culpa, que se acalme, que estamos todos bem mas não consigo, de cada vez que olho para o amontoado de peças, só consigo rir. Vou confirmar os estragos no meu carro, um pequeno vinco, não mais de dez centímetros, no guarda lamas. 
A senhora, histérica, telefona para a polícia, que chega passado uns minutos e diz-me o senhor polícia, com um ar deveras preocupado, que tenho de soprar no balão. Aponto para a barriga enorme e digo-lhe que são oito e meia da manhã e tudo o que bebi foi um belo leite achocolatado. "Pode acusar de ontem!!" "Hein? Ok, senhor polícia vamos lá ver isso, eu percebo que a taxa de infracções relacionadas com o alcoolismo tenha aumentado substancialmente desde que as grávidas começaram a conduzir!!" 
Neste entretanto, chega o marido da senhora que é muito compreensivo comigo e que apenas está aborrecido porque a esposa precisa da viatura para ir trabalhar. Digo-lhe que as seguradoras providenciam um carro de substituição até aquele ficar pronto mas de repente lembro-me que as empresas de aluguer de automóveis dificilmente terão um papa reformas na frota. Dá-me outro ataque de riso e saio de mansinho.
Até hoje, há pessoas que acham que fiz de propósito mas eu juro que não vi, estava tanto sol e o carrinho era branquinho, novo e reluzente.
Para meu castigo, macaquito adora papa reformas, são carrinhos pequeninos e têm matrículas amarelas, ele adora matrículas amarelas, ele também adora carros de matrícula francesa exactamente pelo mesmo motivo. Há dias disse-me muito mas muito entusiasmado:
"Mamã, quando for grande vou comprar-te um papa reformas!"

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do... ups... Pai

Acordo com macaquito na minha cama, tem o hábito de se levantar por essas seis da matina e vir enfiar-se subrepticiamente ao meu lado. Assim que abro os olhos, tenho umas pestanas enormes encostadas no meu nariz.
"Feliz dia do pai!" diz com uma voz meiguinha.
"Obrigada filhote mas tens de ir dizer ao pai, afinal é o dia do pai, não da mãe."
"Se eu gosto tanto de ti também te posso dizer feliz dia do pai!"
Abraço de urso, dá cá aquele abraço de urso.

terça-feira, 17 de março de 2015

O estranho caso da chave saltitona *


Capítulo VIII 


Elisinha começa a sentir-se zonza, talvez não devesse beber, afinal não está habituada e estas andanças com a Maria não são boas para a sua reputação. De repente desmaia, várias pessoas acodem, começam a atirar-lhe água e começa a vir a si. Estava deitada no alcatrão mas não na porta do Lux, não sabia bem onde estava, só via quatro patas peludas e o que lhe parecia ser chichi a pingar. Tudo não passou dum sonho, talvez o seu João não tivesse feito nada daquilo que pensara sonhar. Ou talvez sim.

- Aiiiiii Flávio, que foi isto que s'atravessou nas patas do burroooo?
- Eu lá Preciosa mas que chera pior que as entremeadas lá isso chera. Manda os cachopos desmontar da carroça e ver o que se passaaaaa.
- Celestinooooo, não ouviste o paiiii? Vai lá ver o qué aquiloooooo.
O bairro inteiro assistia de longe ao atropelamento da Elisinha, ninguém se aproximava dos ciganos recorrentemente mal afamados, ainda por cima de carroça. Desde que proibiram os carros mais velhos na  parte antiga da cidade, era um corrupio de carroças, no entanto, já se respirava muito melhor. Mais abaixo, reinava a confusão, uns gritavam para ligar para o 112, outros esbracejavam para a dona da mercearia da Avenida para que chamasse a polícia, agora chegar-se lá perto é que nem o João que ainda se refazia do susto de ter sido apanhado com a boca na Maria.

O ciganito desceu da carroça e gritou:
- Paiiiiii, é só uma mulheri, chera um bocado a merda mas acho que se alêjou. O burro é que ficou com a pata torta.
Elisinha levanta-se meio atordoada, com os rolos pendurados na testa e a combinação toda esburacada mas empunhando a chave pestilenta da traição.
- Ai mulheriiiii, sai daqui ou ainda levas com uma entremeada nas ventas. Aiii quer veri, deu-me cabo do burro.

Elisinha ganha coragem e resolve voltar para trás, agora o seu João vai ter de explicar bem explicadinho o que faz no cimo do Ford Cortina com a ordinária da Maria. Logo a Maria, toda a gente sabe que ela já se deitou com todo o par de calças da Avenida da Igreja, até dizem que fez aquilo lá na roda gigante da Feira Popular. As más línguas até lhe chamam a bicicleta da aldeia mas a Elisinha nunca pensou que fosse tanto assim, afinal as mulheres só são assim nas novelas da TVI.

Nos entretantos, alguém dera ao João e à Maria uma toalha de renda e um lençol às bolinhas que cairam do estendal da D. Leocádia, eles tinham muito para explicar mas não desnudos diante as criancinhas que de nudez nada sabiam mas já perguntavam às respectivas mães se as maminhas da Maria eram mesmo assim ou se tinham silicone.
Elisinha chega esbaforida, os olhos estavam vermelhos de chorar e também de raiva.
- Elisinha, eu posso explicar... - balbuciava João segurando na mão a renda que antes lhe tapava as partes.
- Manuel João eu não acredito que me traíste, logo hoje, no dia em que me ia entregar a ti.
- Hoje? Se fosse só hoje. - Maria sentia que tinha de provar que o garanhão era seu há muito tempo
- Eu não acredito, ainda ontem no confessionário do Padre Henrique lhe professava o meu amor por ti.
O Padre Henrique, que entretanto alguma beata chamara, ao ouvir o seu nome e a alusão ao confessionário ficou vermelho que nem um tomate. Afinal a Elisinha não era tão púdica como toda a gente julgava...

(Continua...)


*post feito em parceria

Pai babado

Pai macaco e sua macaquita continuam, como de costume, sentados na mesa a acabar de jantar. Macaquita porque demora todo o tempo do mundo para comer, entre birras e conversas da treta e o pai porque acha que o melhor da vida é o tempo que se passa à mesa. Encosto-me ao balcão a beber um café e a ouvir as sempres hilariantes conversas entre os dois.
"Papá, ainda não disseste que eu sou linda."
"Pois não, a minha princesa é tão linda, a mais linda!"
Isto podia ser muito bonito e fofinho, não fosse o facto de macaquita estar a ficar demasiado vaidosa e arrisco até, arrogante, por ser mesmo muito bonita e as pessoas relembrarem-lhe isso constantemente. Portanto, resolvo meter a colher.
"Qual bonita?! És feia e parva!" digo com um ar de gozo.
"Oh mãe, sou só parva, sou só parva."