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terça-feira, 25 de setembro de 2018

A caricatura perfeita

Fomos buscar umas coisitas ao supermercado, assim que entrámos macaquito corre para uma caixa atulhada de peluches do Gang dos Frescos e abraça-os a todos, faz um discurso para cada um deles, alto, muito alto, tão alto que passados uns minutos havia um grupo de pessoas à volta dele a rir de tanto disparate. Continuo as compras naquele corredor e quando acabo lá o convenço a vir embora. Chegados à caixa, explica ao funcionário que adora todos e cada particularidade daqueles bonecos mas vem embora apenas com os pacotinhos de pontos que, eventualmente, lhe poderão dar acesso ao objectivo final.
Sem abrir, segura-os na mão e entrega à irmã assim que voltamos a casa para que seja ela a abrir e colar os pontinhos na caderneta. Vou para a cozinha preparar o almoço e a dada altura, ele grita-me surpreendido da sala:
-Mãeeee, o avô está aqui! - por momentos fico confusa.
-Qual avô? 
-O avô C. - encosto-me ao balcão meio atordoada, penso para mim o que raio estará o puto a ver. Macaquito tem qualquer coisa de extrassensorial que faço por ignorar, muitas vezes consegue ver coisas e adivinhar outras duma forma que nunca consegui entender mas que sempre associei ao facto de ter um cérebro diferente dos demais.
-Não estou a perceber nada, macaquito.
Corre da sala até à cozinha e mostra-me as cartas.
-Está aqui mãe, nas cartas, o avô está aqui nas cartas. - olho para as figuras e as lágrimas quase me saltam. Ele tem toda a razão, o chef do gang poderia muito bem ser o meu pai. O mais engraçado é que o meu pai era o cozinheiro da família e chamávamos-lhe "Chef Silva".

terça-feira, 29 de maio de 2018

Engomo o passado sem tirar vincos, nem rugas, as marcas são para preservar. Engomo-o na esperança vã de o esticar, de o prolongar já que o relógio se nos parou de repente. Tarefa árdua e inútil, restam-nos as memórias e as marcas que deixaste, restam-nos as saudades das tuas mãos, do colo que davas, das histórias inventadas ao minuto com enredos intrincados e divertidos. Restam-nos as saudades.

 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A mãe que sou devo-o a ti

Não sei de que modo amenizar a dor que me corrói por dentro, tento pensar que nada acabou, que ainda o tenho do outro lado da linha de cada vez que macaquito agarra no "telemóvel fixo" e liga o número de casa dos avós. O lado realista leva-me a pensar que já não o verei chegar de máquina fotográfica e câmara de filmar na mão para cada audição ou festa de fim de ano. Ontem tive vontade de chorar no ensaio de orquestra, engoli as lágrimas e puxei pela cabeça para me lembrar de qualquer coisa que me fizesse rir e evitasse ter de sair atabalhoadamente pelo meio das crianças que compõem o grupo. Lembrei-me de muitas histórias de quando eu era tão pequena quanto macaquito é agora, naquela altura em que as máquinas não eram digitais e todas as fotos passavam pelo escrutínio do fotógrafo lá da terra. Imagino que muito se havia de rir o Sr. Horácio com a falta de habilidade dos conterrâneos na arte de fotografar e com todas as coisas invulgares que lhe passavam pelos olhos. Como daquela vez em que rumámos a norte e passeámos por Trás-Os-Montes antes de seguirmos para o Gerês, num desses longos dias de aventuras que por mais anos que tenha nunca irei esquecer, não recordo bem se ainda tínhamos a Dyane ou o Visa 10E, fosse qual fosse seguia carregado até ao tejadilho e o espaço dava apenas para nos sentarmos encolhidos entre almofadas e roupa de cama, sei que descíamos uma estrada montanhosa onde não havia muita floresta e os rochedos ganhavam terreno às árvores vereda abaixo, a minha mãe teve de parar para fazer chichi, longe estava ela de saber que quando fosse buscar as fotografias ao Sr. Horácio, veria o seu rabo branco emoldurado por calhaus no meio de todas as outras fotos de má qualidade mas que ainda guardamos religiosamente. Parece que ainda a ouço, meio incrédula, meio histérica, de faces rosadas de vergonha ante o sorriso malandro do Sr. Horácio.
-Eu não acredito que o teu pai fez isto! - e nós ríamos a bandeiras despregadas perante a foto tirada às escondidas que permanece misturada até hoje com as outras dentro dos envelopes amarelados num saco de plástico velho cheio de boas recordações.