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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A tropa manda desenrascar

Uma das condições inerentes a ser mãe de um miúdo como macaquito, é ter a capacidade de lidar com as situações mais inusitadas, se bem que aqui não tive de fazer nadinha... ainda.
Quando a professora de apoio me ligou logo de manhãzinha a dizer "Está tudo bem mas o Macaquito hoje desorientou-se um pouco, alguém chamou a PSP e uma agente da escola segura veio trazê-lo à escola...", estava longe de alcançar tudo o que se tinha passado na realidade. Perguntei se estava tudo bem com ele, que sim que tinha sido tranquilo mas que ele estava um bocado atrapalhado e preocupado.
Na realidade e depois de uma rigorosa investigação com interrogatório à vítima (ainda não percebi quem é a vítima aqui...) o que aconteceu foi isto:
Macaquitos vão todas as manhãs com uma pessoa amiga que os deixa perto das escolas de ambos, macaquita aguarda com amigos ali perto pois entra meia hora mais tarde e ele segue sozinho, só tem de descer um passeio, 100 metros no máximo, nesse caminho achou que tinha perdido a carteira, na carteira tem o cartão da escola que precisa para entrar, reacção.... entrar em pânico!! Pensou, pensou, pensou e resolveu. Resolveu o quê, perguntam vocês. Resolveu ligar para o 112, afinal era uma emergência.
A pessoa que o atendeu, a quem agradeço, ligou para a PSP que é mesmo ali ao lado da escola dele e eles mandaram um carro da Escola Segura ter com ele e entregaram-no na escola. 
Depois de lhe explicar mil vezes que não estava zangada mas que o problema dele estava longe de ser uma emergência, dei-lhe um abraço e pedi que não repetisse a graça.
Agora só gostava de ter acesso à gravação da chamada do 112, gostava mesmo muito, deve ser hilariante. E também vou ter de ir à PSP, agradecer e pedir desculpa...



Ah! A carteira estava na mochila, junto do telemóvel. Eu mesma a coloquei lá... como faço todos os dias!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Défice de atenção

-Hoje é terça feira, hoje é terça feira.... -canta macaquita assim que acorda.
-Pois é mas qual é a razão dessa felicidade toda?
-Hoje tenho natação, expressão plástica e ginástica e não vou estar quase tempo nenhum com a professora R. É o meu dia preferido.
Não me faz qualquer sentido pôr as competências académicas à frente de nada que os faça felizes, macaquita adora pintar e tocar violino e é particularmente boa nessas actividades, portanto, que se lixe a negativa a matemática (shiuuu, não a vou deixar ler este post) porque sei que é feliz a fazer um monte de outras coisas. Não consigo deixar de sentir orgulho quando me conta que brincou com aquela colega que ninguém gosta ou que teve vontade de chorar porque ninguém quis dar a mão à menina que tem Síndrome de Down.
-Se eu estivesse lá tinha-lhe dado a mão! - contava-me indignada, depois de toda a turma ter levado um ralhete da professora por causa da situação numa actividade que macaquita não frequenta.
Tem nas artes e nas competências sociais uma habilidade imensa, inversa à sua capacidade de concentração em sala de aula e eu sabendo de antemão que todo o esforço que faz para se sair bem nem sempre é compensado, sublinharei sempre que o coração dela é muito maior que zero que teve no último teste.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Da perda

Quase sete meses passados sobre a morte do meu pai, macaquito começa agora a compreender a dor da saudade, a maturidade emocional que lhe achámos era, na verdade, incompreensão. Chora a impossibilidade de rever o avô, percebe agora que é irreversível, que não podemos ir buscá-lo lá ao sítio onde o deixámos. Mas o avô não queria morrer, diz-me com a voz embargada e eu explico-lhe da maneira que sei, com as palavras mais doces que sei, que a saudade pode ser boa, que é o bocadinho dele que temos no nosso coração que não nos deixa esquecê-lo e que será sempre parte do que somos. Digo-lhe, sem acreditar, que esteja onde estiver o avô nos acompanha e nos protege e estará feliz se nós também estivermos, minto-lhe deliberadamente porque não tenho outra forma de lhe mitigar a dor.
No fundo não sei nada da dor dele, ele explica-se por analogias a que tento dar expressão e valor mas não sei se consigo com exactidão uma medida para essa dor. E ao mesmo tempo que se confronta com a dor da morte percebe da pior maneira que também se perde pessoas vivas, depois do silêncio confuso a que me votou nos últimos dias, chovem agora chorrilhos de perguntas a que não sei de todo responder. Invento razões que ignoro, digo-lhe que às vezes as pessoas se sentem tão sozinhas que não querem ver ninguém mas não espero que compreenda. Enxugo-lhe as lágrimas e envolvo-o entre os meus braços e espero desta forma apaziguar as suas emoções porque sei que não há palavras que o consigam consolar.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Alguém devia ter uma bola vermelha ou como lecionar disciplina positiva...

Uma manhã destas macaquita não se sentia muito bem, tosse e dor de cabeça, dizia ela. Perguntou se podia ficar em casa, como não tinha febre insisti para que fosse à escola. Já à porta da escola teve um ataque de choro, puxei-a para o meu colo e tentei acalmá-la.
-Porque é que estás a chorar assim? Não te sentes bem?
-Eu não quero ir à escola, posso ficar em casa hoje?
-Macaquita, se não te sentires bem ou tiveres febre, pedes para ligarem para mim e eu venho buscar-te.
-Mas a professora grita muito.
-Contigo? 
-Não, não grita comigo mas grita muito alto com os outros e eu nem consigo pensar.

E depois há os bons professores...

quarta-feira, 14 de março de 2018

"Life would be tragic if it weren’t funny."

Escolhi uma frase de Stephen Hawking, não por acaso, é uma homenagem ao homem que superou todas as expectativas, um brilhante exemplo de que as limitações não impedem ninguém de ter uma vida extraordinária ou de ser um contributo para a sociedade.  

A sala era o nosso lugar de eleição, forrámos o chão com tapetes de borracha, os brinquedos com sons e luzes, os livros sensoriais, tudo o que pudesse estimular fazia parte do nosso chão, paredes e móveis. Metade do dia era passado em terapias, as brincadeiras eram terapias, as palavras eram pensadas quase ao milímetro e já nem dávamos conta disso.
Ele nunca desistiu, nós nunca desistimos e continuamos a celebrar cada texto escrito pela mão dele, cada nota tocada no acordeão, cada pequena superação diária da mesma forma que celebrámos as primeiras vezes que se conseguiu sentar quase com dois anos ou o primeiro passo aos três.



Precisam-se de exemplos de superação, brindem-me com eles, mostrem que é possível. Contem-me histórias de solidariedade, de inclusão, de pessoas ou entidades que acreditam que não há limites e que qualquer pessoa independentemente da sua condição pode ter impacto na sociedade. Vamos mostrar que podemos ser uma sociedade justa, que luta pelos direitos da pessoa com deficiência, as barreiras físicas podem ser eliminadas mas de nada valerá se não eliminarmos o preconceito.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Ninguém me convidou para jantar...

Eu não ia escrever nada sobre o dia da mulher mas uma pessoa recebe 300 mil mensagens com florzinhas e corações, a dizer coisas como És mulher e mãe, feliz dia da mulher e outras que tais e pergunta-se se é este o papel redutor que continuam a querer atribuir ao dia 8 de Março e a  todas as mulheres que lutaram e lutam pela igualdade de direitos? Sim? Então parem de comemorar!
Bem basta ter um filho que me responde (quando lhe pergunto se sabe o significado deste dia)  que:
-É o dia em que as mulheres vão todas para os restaurantes...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ser crescida

- Mamã, a escola ao lado da nossa é para os meninos do 5º ano, não é?
- Sim, pertence ao mesmo agrupamento.
- E o mano vai para lá para o ano?
- Se tudo correr bem vai, se estiver preparado.
- Eu acho que ele não está preparado, é melhor ele não ir.
- Logo se vê, ainda falta muito para acabar o ano.
- Pois mas eu tenho medo que ele vá, ele até pode estar preparado para as aulas mas tenho medo que lhe batam ou que gozem com ele.
Partilhamos exactamente as mesmas preocupações, inquieta-me perceber que o fardo, que lhe passo involuntariamente, seja talvez demasiado pesado.  Queria agora que ela vivesse a plenitude dos seus 7 anos, que fosse só criança ao invés de ter de gerir medos e emoções que não lhe estão destinados. A dada altura da sua pequena vida, achei que lhe devia explicar por que raio é que tolerava certos comportamentos do irmão e não a ela, expliquei-lhe também que ela deveria ser mais tolerante com ele mesmo que recortasse tudo mal ou não soubesse desenhar uma casa, ela teria uns 4 anos e respondeu-me que tinha entendido tudo, que o irmão "tinha uma doença, na cabeça", não foi nada do que lhe disse mas foi assim que ela entendeu. Nesse dia sorri, achei graça à sua percepção, longe de mim imaginar que nesse dia lhe vesti um colete de areia, daqueles que tanto se fala agora, que são bons para os meninos como o irmão e que pesam 7 quilos, só que o colete não lhe deu apenas informação proprioceptiva, criou-lhe um vínculo, uma imposição de maturidade, uma obrigação que eu nunca quis que tivesse, ou pelo menos, não tão cedo. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

9X9

Apesar da ansiedade com que esperava pelo primeiro dia de aulas, o querer rever o amigo F., e matar saudades das professoras, eu já sabia o que estava para vir e claro que assim que chegou a casa, chegou com ele a "dor de barriga". A muito custo lá o convenci que teria de voltar de tarde, que era só mais um bocadinho e que mal daria pelo tempo passar. Andamos nisto desde quarta-feira, de manhã vai relativamente tranquilo mas a hora de almoço é um carrossel de emoções para ele e obviamente para mim. Sei que ainda vai demorar algum tempo a entrar na rotina e que até lá o desafio é diário, encho-me de argumentos bacocos, encho-o de mimos e abraços mas nada do que faço parece suficiente para o acalmar. Hoje ao deitar a derradeira tentativa:
-Mamã, amanhã não me obrigues a ir para a escola.
-Claro que não, eu não obrigo ninguém a ir para a escola.
-Então posso ficar contigo em casa?
-Claro mas temos de arranjar qualquer coisa que possamos fazer os dois.
-Olha, ficamos os dois a trabalhar, eu estudo contigo.
-Tudo bem, então amanhã começamos pelas tabuadas que eu acho que já não te lembras muito bem.
...

...

...

-Afinal acho melhor ir à escola, não quero que a professora sinta a minha falta.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ser indiferente

Há pessoas que sonham, vivem na utopia de que o mundo pode ser igual para todos, porque seria bonito não teres de falar de inclusão ou teres de lutar todos os dias por direitos iguais. Não interessa nada para quem está de pé que todos os interruptores estejam à altura de uma cadeira de rodas, seria de somenos importante uns pontos em relevo numa embalagem de champô se puderes ler que é adequado ao teu tipo de cabelo, também nada se perderia se além de inglês e francês as crianças pudessem aprender língua gestual na escola. Mas não, há pessoas que fazem questão de te recordar sempre que possível de que tamanho é a tua deficiência, que o facto de teres menos um braço ou apresentares qualquer tipo de distúrbio neurológico é condição preliminar para te apresentar ao lado menos simpático da diversidade.
As boas intenções podem ser perversas se levarem à marginalização do atípico, impor normas que não permitem a convivência em condições de existência já por si desiguais é simplesmente vergonhoso.
Se não queres fazer a diferença, pelo menos mantêm-te indiferente.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Absurdos

Dou-vos macaquito exactamente como ele é, privilegiando obviamente as histórias divertidas que nos preenchem a maior fatia do nosso dia a dia. Seria redutor falar apenas na sua condição rara ou no seu autismo porque isso é apenas uma pequena parte da criança fantástica que é mas serão com certeza motivos para amá-lo ainda mais. Quão estranho foi sentir que no momento em que saiu de mim e que o olhei pela primeira vez apenas me deleitei com os pormenores, a boca perfeita, o nariz arrebitado e a penugem que lhe cobria a cabeça, não me apaixonei naquele momento, amava o todo há tanto tempo que nem saberia dizer em que ocasião fui tomada por aquele amor e nem os defeitos todos do mundo poderiam quebrar a validade do selo branco que o autentica.
Por tudo isto talvez, em dias como os de hoje, em que faz muitos disparates e recebo queixas poucos habituais à porta da escola, inunda-me uma tristeza e apetece-me castigá-lo e até dar uma palmada mas depois lembro-me que afinal o meu filho não é uma criança como as outras e que precisa de ouvir vinte vezes, ou vinte mil, que não precisa de ser o palhaço da escola para ter atenção das outras crianças. E ao deitar, confesso-lhe mais uma vez o meu amor incondicional, explico-lhe que não precisa de regatear atenção porque a tem de quem importa e formato-o para fazer um pedido de desculpas sincero à professora que tem por ele um amor parecido com o meu.
E depois fico mais uma vez a pensar nas incongruências de ter de formatar uma criança para que ela distinga o certo do errado.  





quarta-feira, 10 de maio de 2017

Gosto de cumprir com as minhas promessas

Como de costume as perguntas difíceis surgem sempre quando a vou deitar, deito-me junto dela e ela enrola-me com pedidos de histórias e perguntas. quando todos os argumentos pareciam esgotados, ela sai-se com esta:
-Mamã, o que é um canguru na mama?
-Um quê?
-Um canguru na mama.  A M. disse que uma senhora tinha um canguru na mama e depois ficou sem cabelo.
Depois de me rir 10 segundos imaginando a confusão naquela cabecinha, optei por lhe explicar de modo ligeiro sobre o cancro em geral, com a promessa final de que nenhum de nós teria de usar uma peruca. Apesar da tranquilidade e ligeireza na explicação, optei por omitir o desfecho menos optimista mas tenho a certeza que esta noite a cama terá mais um inquilino. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Tenho muitos livros por ler

Fomos buscar macaquita à escola e como chegamos 10 minutos antes da hora, saquei do livro que trago sempre na mala e perguntei-lhe se podia ler ou se queria conversar.
-Podes ler mamã, eu fico a ouvir a música.
20 segundos depois.
-Mãe, podes ler!
-Estou a ler, macaquito.
-Mas não estás a mexer os lábios.
Pela primeira vez percebi que ele ainda não tinha entendido que se pode ler em silêncio, na verdade sempre que leio com eles fazêmo-lo em voz alta, eu leio para eles, eles lêem para mim. 


E pensando bem nisto, constato que em 9 anos poucas foram as vezes que consegui ler os meus livros quando estão comigo em casa, a menos que estejam a dormir...

domingo, 29 de janeiro de 2017

Alerta

Ainda estou enjoada, passaram uns quantos dias e ainda me custa falar nisto, faço por deixar aqui apenas os registos divertidos mas há coisas difíceis de guardar e espero apenas que sirva de alerta.
Passei com macaquito no supermercado, estávamos na zona de congelados e enquanto eu tirava umas coisas da arca, macaquito aguardava ao meu lado com o cesto. Por trás de mim, passa um senhor de idade com um carro e coloca-o do lado onde o miúdo estava, para o fazer dá uma espécie de abraço ao miúdo e roça-se todo nele. Levei cerca de 10 segundos a processar o que estava ali a acontecer, larguei os congelados para dentro do cesto e digo directamente àquela besta que não estou a entender o que está a acontecer. O fulano mete os olhos no chão e sem me responder continua imóvel, nesse momento fico com a certeza de que foi intencional, repito que não percebi bem o que aconteceu e que não torna a tocar no miúdo. Vou para a caixa toda a tremer e alerto a empregada de que aquele senhor não é de confiança e que teve um comportamento inapropriado com o meu filho.
Passou-me tudo pela cabeça, chamar a polícia ou a gerência mas na situação que foi ele podia alegar que nada aconteceu. Tenho a certeza que o conheço mas não sei de onde, o que me assusta ainda mais. Sinto que devia ter feito qualquer coisa, tenho agora consciência que nunca saberei lidar com situações destas.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Uma questão de método

Não havendo trabalhos de casa, disse-lhe que tínhamos de estudar um pouco as tabuadas que é o que ele mais detesta e por isso não se esforça minimamente em sabê-las. Quando estamos a fazer problemas matemáticos, deparamo-nos amiúde com essa lacuna e as coisas correm muito mal. O  problema é que nem todo o poderio bélico do mundo o demoveria quando ele mete na cabeça que não faz. Por tudo isso e porque ele insistia, com alguma razão, que se não tinha trabalhos é porque a professora lhe deu folga, resolvi ir buscar o quadro branco para a sala e comecei a escrever 4X1=, sem sequer olhar para ele.
Ele pega numa caneta de outra cor e escreve 4 e eu insisto no 4X2= , ele escreve 8 e diz-me que dali para a frente quem põe o sinal de igual é ele. Faço uma festa tão grande que ele até olha para mim espantado, continuamos a brincadeira e pelo meio vamos desenhando bonecos tolos que ganham olhos, nariz, barba e cabelo à medida de cada resultado correcto. Depressa passamos para a tabuada do 5 sem uma única reclamação e com todos os resultados certos e depois a do 6, 7, 8 e 9. Mais uma vez concluo, parafraseando o Scolari , que o burro sou eu porque ele sabe aquilo de cor e salteado e quando me grita o resultado final de um problema, sem me conseguir explicar qual o raciocínio que fez, não é por acaso, é apenas estar uns quantos passos à minha frente.
Ninguém me tira que se o avaliassem no quadro branco ou oralmente, os resultados iriam muito além do suficiente.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Somewhere over the rainbow...

Tem sido duro combater a falta de produtividade a que macaquito se entregou, chegar da escola com os dois e depois de devidamente alimentados, arrastá-lo para o quarto para que faça os trabalhos, são sempre poucos e demasiado fáceis, no entanto, nunca se passam menos de duas horas até que consiga terminar. De seguida, pego na irmã e em 10/15 minutos despachamos a parte dela. Estamos nisto há quase duas semanas, sinto-me como se estivéssemos no final do ano lectivo. 
Depois há as actividades extra-escola, concedi a macaquita que desistisse da ginástica porque quer aprender a tocar violino, macaquito continua mas ainda não tive vontade de o levar pois é mais um dia de corre-corre e foi-se-me a coragem. De hoje não passa, a motricidade dele assim o exige. Isso e natação. Ahhhhh! A natação... Querem saber o que aconteceu na segunda aula?
Desci para o balneário faltavam 5 minutos para acabar, cheguei à entrada e os torniquetes não abriam, ao fim de algumas tentativas lá passei, sigo em passo de corrida e dou de caras com a professora da escola de macaquita que muito aflita e enervada me explicava uma situação que tinha acontecido nessa manhã com uma mãe. Fui-lhe dizendo que sim, que compreendia mas tinha de seguir que os miúdos estavam sozinhos, continuou muito arreliada com a situação e eu a andar e ela a falar e eu a pedir e ela a explicar e a muito custo lá chego ao balneário onde já se encontrava a professora de natação que me disse que não havia problema nenhum e que eles já estavam a tomar banho. Acabei de os lavar e vestir e aparece-me uma senhora, aparentemente uma daquelas mães perfeitas, que me diz de dedo no ar e aos gritos.
-SE O SEU FILHO NÃO TEM CAPACIDADE PARA TOMAR BANHO SOZINHO, TEM DE VIR MAIS CEDO PARA O BALNEÁRIO!!
A ira tomou-me, não fosse eu uma pessoa ponderada e ter-lhe-ia enfiado um dedo no olho e um pontapé no cu. Olhei para ela com a minha pior cara e respondi-lhe calmamente.
-Se a senhora não tem capacidade para falar comigo com educação pode voltar pelo caminho que a trouxe aqui.
Ela gaguejou e mostrou-me as calças molhadas. Ela estava vestida na zona de chuveiros, é normal que qualquer criança com mais ou menos CAPACIDADE possa molhar quem ali passa visto que estão com os chuveiros na mão. Pedi desculpa pelas calças e voltei ao meu martírio, controlar a vontade obsessiva de macaquito de fechar as 4576 portas dos cacifos e experimentar todos os secadores independentemente de estarem a ser utilizados por outras crianças ou não. Sentia-me tão desesperada que um pai que ali estava veio em meu auxílio e sossegou o meu filho com uma advertência e depois me disse que era apenas para não ser só eu a ralhar que macaquito já nem me estava a ouvir. 
Ontem, à saída da escola, quando chegou ao portão, deu duas cacetadas na cabeça da irmã, porquê? Porque ela chegou primeiro, chamei-lhe a atenção e começou a gritar enraivecido e completamente descompensado. Sabem o que me irrita? Os olhos minha gente, os olhos, fui condenada de imediato por todas as mamãs que ali estavam, excepto as que me conhecem, essas olham-me com pena... Ainda não descobri o que é pior! Peguei-lhe na mão sem dizer nada e segui com o sorriso do senhor Zé da portaria, esse sim, entende-me. Ao entrar no carro disse-lhe sem levantar a voz.
-Estás de castigo, hoje não vês televisão, se a mana quiser ver não poderás entrar na sala. Foi a última vez que gritaste comigo, não te aceito esse comportamento e não quero ouvir qualquer tipo de desculpa porque não tolero má-educação.
Pediu-me desculpa sussurrando que eu bem ouvi e não abriu a boca até casa.
Após o lanche fizemos os trabalhos de casa e pela primeira vez, fez tudo de seguida, sozinho, apenas com supervisão e algumas perguntas para tirar dúvidas, terminámos em 40 minutos. Dei-lhe um abraço e disse-lhe.
-Foste perfeito, maravilhoso, espero que a partir de hoje, fazer os trabalhos de casa seja sempre assim divertido.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Macaquito, o optimista

Ligo várias vezes durante o dia até que que alguém me atenda. Prestes a desistir, o avô lá me atende e explica que foram passear e não levaram o telemóvel, ouço-o sair de casa e entretanto já ouço também o pequeno.
-Então meu vadiola, o que andas a fazer?
-Fui à procura da avó, ela deixou as chaves na rua. Nunca sabe de nada, até podem estar no contentor do lixo, ai que eu vou ter uma conversinha muito séria com esta avó! - fala ininterruptamente até quase perder o fôlego.
Percebo que vem a falar e as descer as escadas ao mesmo tempo, o eco ressoa-me nos ouvidos e a sua voz tremelica. Apesar de ter melhorado o equilíbrio com o reajuste da medicação, mudou de óculos à pouco tempo, é provável que ainda não se sinta seguro. Cai tantas vezes e quando cai magoa-se sempre a sério, apesar de nunca ter caído numas escadas, é o que mais me assusta. Tento não passar para ele as minhas preocupações, no entanto, percebe-me a apreensão mesmo quando não digo nada.
-Espera mãe, tenho de agarrar o corrimão... As escadas são muito altas... Ai ai... Isto às vezes é difícil... Mas não te preocupes, o avô vai ali falar com os conselheiros da visão e fica logo tuuuudo bem!

terça-feira, 7 de junho de 2016

50 tons de pele

A minha filha é preconceituosa, para não lhe chamar outra coisa. Ontem disse-me que o D. tem uns olhos bonitos mas que não gosta dele porque "ele é castanho". Fiquei atónita, nunca me passou pela cabeça que ela pudesse dizer uma coisa destas. A minha reacção inicial foi de condescendência, obviamente tentei compreender o porquê daquelas palavras e explicar-lhe que as pessoas são todas iguais apesar da cor da pele, dos cabelos ou dos olhos. Ela teimou, voltando sempre à afirmação inicial. Quando há uns tempos, enquanto pintava me pediu o lápis "cor de pele", eu
dei-lhe vários lápis, vermelho, castanho, amarelo, rosa-claro, ficou a olhar para mim, então disse-lhe que essa cor  não existia, que há vários tons de pele e pensei em levar a discussão à sala de aula pois em casa não usamos o termo.
Será normal na idade dela? Sempre supus que o exemplo parental e/ou contexto familiar falasse mais alto, terá o contexto escolar um peso tão grande na definição do carácter nesta idade? Ou estou a pôr demasiado peso e isto não será efectivamente um problema?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

E o palerma sou eu?

Após uma intensa tarde de estudo para uma prova de aferição que não conta para nada, a não ser para cumprir calendário, responsabilizar crianças do segundo ano não sei bem em quê e suprir necessidades de cumprir objectivos de alguns iluminados, já na cama macaquito diz-me isto:
-Mamã, eu vou ter de estudar mais vinte anos ou pode ser só até ao 12º?
E eu arrependi-me de não o ter deixado ir passear com o pai e a irmã e me ter zangado com ele na pausa de uma hora que lhe dei por ter extravasado toda a energia das formas mais palermas que lhe passaram na cabeça. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O caminho

Ninguém sabe o que lhe vai na cabeça, ainda que fale connosco incessantemente. Eu que lhe conheço as manhas e entranhas e todos os passos que dá, vou entendendo o discurso aparentemente desconexo, na impossibilidade de o entender pergunto-lhe descontraidamente onde foi que viu tal coisa, amiúde a resposta é "nos meus sonhos". 
Permito-lhe que sonhe, se bem que o tenho de acordar demasiadas vezes, arbitram-me que o traga para a realidade, fico-me a pensar o que ganha com isso, se nos leva a algum lado. Se viver num sonho o levar a um fim qualquer, podemos sempre recomeçar. Não o vou condenar a viver uma realidade que é de todos mas talvez não seja o lugar onde se encaixe. 
Se é a minha mão que escolhe para caminhar, vou permitir que escolha também o caminho e no fim sei que estaremos bem, se não estivermos, podemos sempre começar de novo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ninguém sabe tudo

Eu preciso de ajuda, por vezes precisava que alguém me ajudasse com os banhos nos dias que o pai não está em casa. Ou de ter alguém que os fosse buscar à escola certos dias, por certas razões. Uma mão convinha tanto naqueles dias em que o cansaço mental se sobrepõe ao do corpo.
As únicas mãos disponíveis estão à distância de demasiado tempo, então fico-me sem amparo mas com genuíno entusiasmo no meu trabalho de mãe, trabalho esse que acredito fazer muito bem sem conselhos de especialistas e sem leituras de psicólogos e psiquiatras do escaparate da livraria.
Li por aí que os miúdos hoje em dia são mal educados e que há pais que lhes absolvem os comportamentos com gotas de Ritalina, quando se podem resolver comportamentos desviantes com um bom par de palmadas na opinião de uns ou com boas leituras a ver de outros. Eu, não sendo especialista de nada, venho desmistificar. A hiperactividade não pode ser diagnosticada pelos pais e a medicação, aplicada em casos de hiperactividade, não se compra como se de Benuron se tratasse, logo, se a criança que é apenas mal-educada está medicada, ter-se-ia de aplicar um açoite ao médico que a diagnosticou. Quem acha que um livro é a solução é porque vive numa realidade paralela à dos pais com crianças problemáticas, leia-se por problemática criança com problemas, os problemas podem ser tantos e de tantos foros que me escuso a relatá-los todos,  falarei apenas da minha experiência pessoal.
Houve uma altura que macaquito, sempre que saia de casa e cruzava uma qualquer porta, largava a chorar, pedia insistentemente para ir embora, gritava e fazia disparates até sairmos de novo. Foi de repente, o autismo não estava ainda diagnosticado, não havia motivo aparente para se comportar daquela maneira e eu não conseguia lidar com aquilo. Nunca lhe dei a bela da palmada, nem berrei com ele no meio da rua porque "a emenda seria pior que o soneto". Normalmente um colo ajudava mas não resolvia. Vi muito revirar de olhos e muito abanar de cabeça mas de todas as vezes que aconteceu, muitas estava com a mais nova de 2 anos ao colo, tinha de pegar nele para que sossegasse e ficar com os dois ao colo e  NUNCA ninguém me ofereceu ajuda.
Marquei consulta numa psicóloga que me deu algumas estratégias que ajudaram, nenhuma delas passava por castigá-lo, bater-lhe ou berrar com ele, nem por medicação de género nenhum, nunca foi sequer sugerido. Durante as várias consultas que teve com ela, nenhuma razão foi encontrada para aqueles comportamentos, também nunca me falou em autismo. Apesar da ajuda nas estratégias, aprendi a gerir as birras sozinha, a conviver com elas e com aquilo que os outros pensavam de mim e da educação que dou aos meus filhos. Com tudo isto quero apenas dizer que os médicos são falíveis, os pais também e não há verdades absolutas, pelo menos no que concerne à educação infantil.
As nossas palavras podem ser monstros nas vidas de estranhos e nós dormimos tranquilos a pensar que sabemos tudo.